10/03/2013

Livro: Passaporte Diplomático: Lembranças de uma Embaixatriz

Neste momento, estou lendo "Passaporte Diplomático: Lembranças de uma Embaixatriz", de Yeda Assumpção, esposa do Embaixador Roberto Assumpção. Trata-se de uma obra interessantíssima e de leitura fluida. Recomendo a todas e todos. Já estou na metade e não consigo parar de ler. Transcrevo abaixo entrevista da autora para o Grupo Editorial Record. 

"Passaporte diplomático é o relato da vida de Yeda Assumpção, mulher do diplomata Roberto Assumpção, que teve o privilégio de participar ativamente da vida diplomática no exterior durante 29 anos. Yeda compôs sua trajetória, ao lado do marido, vivendo em países longínquos e muito diferentes entre si, com costumes e ambientes diversos, e assim obteve a exata convicção patriótica de que o verdadeiro diplomata é o mais perfeito emissário de sua pátria — e quem o acompanha também. Neste livro de memórias, que ela prefere chamar de lembranças — o primeiro do gênero no Brasil — a embaixatriz revela segredos e recorda emoções vividas, para reconstituir tudo o que testemunhou durante sua vida no mundo da diplomacia brasileira fora daqui. Yeda começou a trilhar este caminho muito cedo, como consulesa em Milão, aos 20 anos, e depois partiu para a Argélia ao lado de Roberto, país que mantinha estreita relação com o Brasil de então, e que muito a marcou. Yeda conta que “a minha vida pode ser descrita como antes e depois da Argélia. Foi lá que botei o pé no real, que comecei a deixar para trás alguns pedaços da minha inocência, das ilusões da juventude”, diz ela.

Este é um personagem desconhecido da maioria dos brasileiros. O quanto existe de glamour e de trabalho na vida de uma embaixatriz?

Para a maioria, a história é sempre muito colorida, a embaixatriz está sempre muito bem vestida, sempre em recepções... Tudo isso é verdade, mas não é só isso. No livro, tento explicar que existe um papel a cumprir, isto é, o que o marido, o profissional em questão, espera e necessita de sua mulher.  Esta é, aliás, uma função muito negligenciada. Inclusive pelo Governo. Na maior parte do tempo, trabalha-se muito sem direito sequer a uma aposentadoria. Nunca se pensou em dar à embaixatriz um status, mas ela tem. Isso é o que eu tento passar no livro. Sem querer invadir o espaço do embaixador, a verdade é que muita coisa depende dela. O sucesso do marido também depende dela.

Você define a embaixatriz como uma espécie de “eminência parda”, a preparar, a criar ambientes para grandes acontecimentos políticos. Você enxerga o posto desta forma?

Sem dúvida. Através do marido, ela vai percebendo, sentindo o que interessa, o que pode dar uma informação nova, o que pode facilitar uma posição para o Brasil. Com o passar dos anos, descobre enfim quais são os pontos vitais do seu marido. Quais são as pessoas que interessam; qual é o grupo que se deve montar para que ele tenha facilidade de atuação. Naturalmente, tudo isso é passado por ele, mas a embaixatriz trabalha em cima destas informações. É um trabalho cheio de acontecimentos diários. Você tem que se informar de tudo. Não existe aquela hora em que você esquece de todos e vai relaxar. É preciso estar sempre ligada. Tudo acontece nos encontros. Por isso, a embaixatriz tem que ter em casa coisas que atraiam, algo que as pessoas gostem e que perguntem: "Domingo a piscina estará aberta?" É um trabalho de sete dias por semana e 24 horas por dia. Foi assim comigo, mas é preciso dizer que sempre com muita paixão.

Pode-se dizer então que toda embaixatriz é um pouco embaixadora?

Vejo tudo isso através de um prisma muito claro, fui apaixonada pela carreira. Nunca fui infeliz em posto algum, graças à minha capacidade de adaptação. De sair de uma casa maravilhosa para um país comunista, de lá para o Oriente Médio, de lá para o extremo Oriente... Sempre tive uma curiosidade enorme. Nunca me senti vítima de nada, uma coisa muito comum entre as mulheres dos embaixadores. Uma vez fora do circuito apelidado como Elizabeth Arden, todas se sentem vítimas. E não são não! É uma atitude, algo muito pessoal, porque apesar do trabalho estamos sempre numa posição privilegiada. Existem mil maneiras de viver dentro destas condições. Você jamais teria a chance de conhecer o país em que está vivendo, a sociedade, os modos e costumes, as religiões, fora desta esfera.

Suas memórias passam a impressão de que todos os movimentos da vida de uma embaixatriz têm caráter político.

São mil funções. As pessoas de passagem, por exemplo, todas querem atenção. São senadores, deputados, pessoas ligadas à Presidência da República. Gente que chega às 11 horas da noite para almoçar e você tem que atender... Além disso, você sempre tem uma casa de grandes proporções, um número excepcional de empregados, todos necessários. Na Índia, por exemplo, fora os da porta, havia 26 empregados. Na parte doméstica, a embaixatriz tem de enquadrar toda aquela gente com habilidade, sorrisos... Mas com paciência, você consegue muito das pessoas. Lembro-me de uma frase, em especial, que utilizei com os argelinos: "Esta embaixada será cuidada e servida somente por argelinos, é preciso que o serviço seja o melhor". Ela acabou sendo de grande valia nos outros países por onde passamos.

O título Passaporte diplomático evoca uma série de fantasias sobre as facilidades da profissão, o glamour... Sua narrativa, no entanto, tenta fugir desta idéia e revelar ao leitor o dia-a-dia dos embaixadores. Foi uma provocação?

Provoco e deixo ele concluir. Relato e cada um pode e deve tomar suas conclusões. Curioso, porque demoramos muito tempo para achar este nome. Nenhum agradava e, de repente, tive uma inspiração. Ora, por que não Passaporte dimplomático? Afinal, por que tudo isso aconteceu na minha vida? Através do que? O nome é abrangente, é a cara do livro. Passaporte dimplomático dá uma visão geral de tudo o que eu vivi, mas tentei deixar de lado o tom ‘coluna social’. Roberto foi decano, o mais antigo posto num país, durante oito anos. Durante a visita de chefes de estado, ele representava o corpo diplomático, de modo que eu sempre estava à direita do convidado. Assim sendo, jantei ao lado do Rei da Espanha, de Valéry Giscard d´Estaing, do Xá da Pérsia... Mas ao meu ver, isso não tem importância. Registrei apenas as pessoas que ficaram, por um motivo ou outro, é que permanecem até hoje em nossa memória.

No livro você menciona o encontro com grandes personalidades do Brasil e do mundo. Como Burle Marx, por exemplo. Qual foi o mais emocionante?

Sem dúvida, com madame Ghandi. Era uma mulher extraordinária. Tinha a aparência de uma senhora bonitinha, frágil, mas ao mesmo tempo uma força no olhar, uma autoridade na maneira de gesticular, no cara-a-cara. Meu encontro com ela aconteceu por uma coicidência, no dia em que ela perdeu a eleição. Nessa ocasião, ela se relacionava com um sikh, um homem belíssimo.  Fiquei tão surpresa com o resultado das urnas, que telefonei para ele. Disse que estava chocada e que gostaria de fazer uma visita à madame. Ele ficou mudo no telefone. Acho que ele nunca tinha enfrentado uma situação como aquela. Pedi então que ele visse o que poderia fazer por mim. Quinze minutos depois ele ligou, dizendo: "madame Gandhi manda dizer que a senhora é muito bem-vinda". Nunca vou me esquecer deste dia. A casa particular dela, onde eu nunca tinha estado, era extremamaente modesta, mal mobiliada, sem nenhum luxo. Você entrava por uma alameda e encontrava a casa no fundo. Lembro-me do motorista parar à porta, ainda meio hesitante, pois para ele aquilo era algo extraordinário. Madame Ghandi veio abrir a porta, abriu os braços e me recebeu com a seguinte frase: "Jamais esquecerei que a única bandeira que passou o meu portal no dia de hoje foi a do Brasil". Foi um momento muito especial.

Os choques culturais proporcionam grandes insights sobre a própria personalidade e, por vezes, alguns desastres. Como você enfrentou as diferenças culturais proporcionadas pelos anos no mundo árabe e em meio à cultura indiana?

Antes de tudo, você tem de ser flexível e, depois, humilde. Deixar de lado esta máscara de que somos os donos da verdade, que os nossos conceitos são os bons e a nossa cultura perfeita. Livrar-se do espírito crítico e abrir os braços. Foi a única forma que eu encontrei para me adaptar à Índia. A Índia proporciona um choque cultural violento. Acho curioso essas pessoas que vão à Índia, passam oito dias e escrevem um livro. Lá vale a sentença: não conclua. Tudo o que você conclui no primeiro ano, descobre que estava errado no seguinte. No terceiro, você vai verificar que também não é nada daquilo. É um país dificílimo de absorver. O ponto de partida deles é muito diferente. Mas é uma gente formidável de se conviver. Acho que está relacionado ao way of life deles, à atitude básica diante da vida. Não temos nenhum ponto em comum. Lembro-me de dizer para o Roberto em nosso primeiro ano na Índia: "Este país é um desafio para mim. Este eu tenho que ter muito jogo de cintura para conseguir". Mas você consegue. Uma vez que eles sintam que você tem um interesse real. Os indianos têm antenas! É o que digo no livro, saí de lá melhor do que cheguei. Mudei como pessoa, como ser humano. Com aquela atitude flexível que tive de ter para alcançá-los, a cultura deles também me alcançou.

De onde surgiu a idéia de reunir as memórias da vida em meio ao corpo diplomático? Como foi o processo de elaboração do livro?

A idéia de escrever o livro nasceu há muitos anos, quando estava na Índia. Na época, meu amigo, Pierre Segueur, era dono de uma das maiores editoras da França. Como ele gostava muito de ouvir as cassetes que eu costumava gravar após as recepções, às vezes, as mandava para ele em Paris. Numa ocasião, quando ele veio passar uma temporada conosco na Índia, me colocou na cabeça que eu tinha “bossa” para escrever. Bem, comecei a acreditar no Pierre Segueur. Mas não tinha muita noção do que seria. Isto só foi acontecer depois da volta para o Brasil. Depois do "choque cultural" que eu mesma tive na volta ao Brasil.

Apesar do trabalho intenso e do pouco reconhecimento das autoridades, você transmite uma grande paixão pela vida de embaixatriz.

Tenho muitas saudades deste tempo, sobretudo das minhas atividades. Tinha uma vida muito intensa. Trabalho intenso, contatos variados, uma vida cultural rica, com muitos eventos. A Embaixada da França, por exemplo, é um núcleo fantástico, sempre cheia de artistas, pintores, conferencistas, sociólogos... Uma vida movimentada que nos deixava com a cabeça alerta. A volta foi difícil pelo término destas atividades. Este esvaziamento foi o que me levou a este livro. Teve seu lado positivo. O livro é fruto da saudade destas emoções, das experiências, das variações."

Fonte: http://www.record.com.br/autor_entrevista.asp?id_autor=2737&id_entrevista=79

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