02/04/2015

A face pouco conhecida da vida diplomática - Parte I

Hoje reli o livro "Passaporte Diplomático: Lembranças de uma Embaixatriz", de Yeda Assumpção, esposa do Embaixador Roberto Assumpção. Já falamos desse livro AQUI no blog.

Nessa segunda leitura, busquei trechos de relatos da Embaixatriz que demonstrassem um lado pouco glamouroso da diplomacia: as dificuldades vivenciadas durante missões em meio à instabilidade social ou política. 


Transcreverei abaixo algumas passagens que chamaram a minha atenção. Espero que gostem e que leiam e releiam esse livro tão interessante e tão essencial à vida de uma diplo wife de primeira viagem.


Na Argélia: "Quando finalmente fomos dormir, deixamos as janelas abertas para que a brisa fresca atenuasse o calor. E foi de madrugada que acordamos com o tiroteio e as rajadas de metralhadora. Nossa embaixada era muito próxima do Palais Joli, a residência oficial de Ben Bella. Escutamos desde os primeiros tiros e não tivemos tempo para muitas suposições. O tiroteio continuou e os telefones não paravam de tocar. Os amigos do corpo diplomático ligavam, se perguntando e nos perguntando o que estava acontecendo, buscando respostas e informações. Finalmente o embaixador do Japão soube de algo mais: - Ben Bella foi preso, o Ministro de Justiça foi morto e Boumédiène tomou o poder - contou. A perplexidade foi geral (...) O exército ocupou as cidades e tudo passou a acontecer numa incrível rapidez; em poucas horas, o golpe estava consumado. (...) Na manhã seguinte, tentei sair de carro, ver de perto o que tinha acontecido. Mas os tanques na rua e o soldado que me aconselhava a voltar para casa foram eficientes em me convencer". Páginas 106-107.


Em Moscou: "Quando fomos enviados a Moscou, em 1961, nossa missão era difícil e delicada: concretizar o reatamento de relações diplomáticas com a União Soviética (...) Mas ao chegarmos (...), encontramos um clima tenso e confuso. Kruschev estava desaparecido, fato que dava origem a uma intensa boataria. As versões para o que havia acontecido eram variadíssimas: ele fora baleado, estava no hospital ou escondido numa dacha. Mas, na verdade, ninguém no corpo diplomático realmente sabia o que estava acontecendo. (...) Uma bela noite, o telefone toca em nosso quarto de hotel: - Amanhã, às seis horas da manhã, estaremos num carro, em frente à porta do hotel, para levar o chargé d´affaires en pied à presença do Sr. Kruschev - diz uma voz desconhecida. (...) Tremi nos alicerces (...) Ninguém mais conseguiu dormir. (...) Depois disso, Roberto não foi mais visto, simplesmente desapareceu. (...) Eu estava incomunicável no hotel. O governo soviético não queria que eu contasse aos outros embaixadores que Roberto iria encontrar Kruschev. Os telefones permaneciam mudos, eu não podia sair do hotel, e também não tomava conhecimento do que acontecia no saguão". Páginas 123-125.


Em Praga: "A vida em Praga de fins dos anos 60 não era nada fácil, o que talvez tenha influído nas minhas lembranças. A combinação de dificuldades de sobrevivência e a pressão de um regime totalitário contribuía para fazer aparecer  os piores defeitos humanos. o dia-a-dia era incrivelmente complicado. (...) O jeito foi pôr fechadura nos freezers e geladeiras. Fechaduras alemãs. Foi o único lugar dos muitos em que vivi mundo afora em que tive que tomar uma providência como essa. (...) Mas talvez o mais angustiante era saber que tudo o que dizíamos e fazíamos estava sendo ouvido e gravado 24 horas por dia. Certamente havia microfones em todos os cômodos da casa.". Página 153-155.


Na Síria: "Eu descobria tudo e todos, com interesse e encantamento, quando começaram os bombardeios de Israel aos acampamentos palestinos situados a menos de dez quilômetros de Damasco, num estado de hostilidades que começaram como consequência da Guerra dos Seis Dias e perdurariam praticamente até hoje. Depois de despejarem suas bombas sobre os alvos, os aviões israelenses arremetiam sobre nossas cabeças, muitas vezes estilhaçando os vidros das janelas com sua violenta vibração. As bombas percutiam por toda a cidade (...) o risco das bombas nos fez passar a viver com papel preto colado nas janelas para evitar que qualquer réstia de luz atravessasse as vidraças. (...) Era o começo da guerra que poucos anos depois destruiria o Líbano". Páginas 164-165.


Em Bagdá: "Bagdá era a outra cidade onde Roberto também era credenciado como embaixador, e que, portanto, deveria ser visitada mensalmente. Era especialmente difícil passar pela praça principal, desviando o olhar das cordas penduradas, vestígios dos enforcamentos recentes, ou andar pela rua com o rosto descoberto, sentindo os olhares reprovadores de homens e mulheres". Página 167.


Na Síria: "A partir daquele momento, não tivemos mais sossego e passamos a viver em grande inquietação. A pressão tornou-se permanente. (...) Roberto usou todos os argumentos diplomáticos existentes (...) Nada adiantou, e a pressão continuava cada vez mais forte. Teve início, então, uma guerra de nervos: um dia acordávamos sem luz; no outro, cortavam a água por horas a fio; de outra feita, entupiam o esgoto e sofríamos uma inundação nada perfumada; depois era uma britadeira trabalhando no meio da noite... Estava criado o inferno". Páginas 171-172.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada pelo seu comentário!