07/04/2015

A face pouco conhecida da vida diplomática - Parte IV

O livro "Por dentro do Itamaraty: impressões de um diplomata", de André Amado, é interessantíssimo. Tive bastante trabalho para escolher os melhores trechos do livro, pois são muitos. Então,  decidi fazer três posts sobre temas diferentes.

Dando continuidade aos três primeiros posts da série, que tratam das dificuldades de sair e de retornar ao país, do primeiro dia em um novo posto e de servir em países com instabilidade política e social; vamos falar do mito em torno da vida social do diplomata.


Muitas pessoas pensam que diplomatas vivem de festas e jantares, que se divertem hodiernamente e que o seu trabalho não é sacrificante. Pois bem, com alguns trechos deste livro, eu gostaria de apontar a "despersonalização" do diplomata na carreira e o trabalho por de trás dos eventos sociais. Este último assunto, será abordado também em outros posts, por trechos de mais duas obras.


"Não se trata de falsear a verdade, a pretexto de “diplomatizar” o ensino das matérias. A máxima de que o diplomata é pago para mentir por seu país no exterior é de particular infelicidade." Página 40.


DESPERSONALIZAÇÃO DO INDIVÍDUO E REPRESENTAÇÃO DA PÁTRIA

"A razão mais importante, entretanto, é a de que, ao ingressar na carreira, o diplomata deixa de ser pessoa “física” e torna-se pessoa “jurídica”. Os novos diplomatas “serão Brasil” de manhã, de tarde e de noite, dentro e fora das fronteiras. Seus nomes continuarão sendo motivo justificado de orgulho para familiares e amigos. Contudo, na hora de cumprir as funções básicas do diplomata, seus nomes próprios terão relevância apenas cadastral. O lema do Barão do Rio Branco, hoje impresso em bronze na insígnia que leva seu nome, explica tudo, “Ubique patriae memor”, em português “lembrando da pátria por toda parte”." Páginas 47-48.

"Não serão o Paulo, o João ou a Ruth que estarão à frente da campanha de lançamento de um produto brasileiro no mercado exterior; tampouco serão o Antonio, a Claudia ou a Ioko que assinarão um artigo de jornal em língua estrangeira sobre a nossa realidade; menos ainda a negociação das questões de interesse na Rodada de Doha haverá de depender da ação pontual de um Roberto, de um Ricardo ou de uma Paula; sem mencionar as gestões junto a autoridades policiais de imigração em países onde os viajantes do Brasil não têm sido tratados com dignidade. O que estará por detrás de cada um desses nomes é a identidade plural do diplomata brasileiro. Os nomes próprios tenderão a diluir-se na memória das demais pessoas; o país de origem do diplomata, jamais.". Página 48.

Com o nome do Brasil estampado sobre todo o seu corpo e presente em todos os atos e gestos praticados no país e, sobretudo, no exterior, o diplomata serve ao interesse público, isto é, ele deve servir ao público.  (...)  Ao servir ao interesse público, volto a ressaltar, o diplomata deixa de ser “pessoa física” para tornar-se “pessoa jurídica”." Páginas 48-49.

"Não há nada de espetacular em o diplomata brasileiro ter o Brasil como âncora e radar central de seu desempenho profissional. Os agentes diplomáticos de todo o mundo comem, dormem, sonham, respiram os interesses de seus países. Essa é, portanto, uma condição necessária, mas ainda não suficiente, para chegar-se ao patamar de bom diplomata.". Página 51.


EVENTOS SOCIAIS SÃO TRABALHO, NÃO DIVERSÃO

"Considerem um jovem secretário em uma embaixada no exterior. Seu chefe informa que oferecerá jantar para o chanceler local no dia tal, às tantas horas, e convida o colega para estar presente — convida é termo de cortesia, pois, vindo do chefe do posto, o convite é o mesmo que convocação. (...) Muito bem. A que horas se deve chegar ao jantar? À hora marcada. Errado. Junto com os demais convidados, para não incomodar. Dois equívocos em uma única resposta. Então antes de começar? Certo, desde que se saiba por quê. Ao chegar antes, o diplomata terá condições de ajudar o embaixador a receber os convidados. Aliás, adianto que antes, durante e depois do jantar o diplomata terá também de assistir o embaixador a entreter os convivas. Ele jamais deve restringir-se a uma roda
com outros colegas de serviço, para não mencionar aboletar-se no melhor sofá da sala, para tirar o peso da noite dos pés. É sempre importante lembrar que o convite não foi para divertir-se, foi para trabalhar. Logo, primeira providência: “Embaixador, a partir de que horas o senhor acha que poderei ser útil?”". Páginas 55-56. 


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