26/04/2015

Aracy Moebius de Carvalho: uma diplo wife

Foto: Acervo família Tess. Aracy, mulher de Guimarães Rosa. 

Após falarmos de Clarice Lispector e de Marie Philomène Stevens, esta é a vez de Aracy Guimarães Rosa, conhecida como "o anjo de Hamburgo", esposa do diplomata e romancista Guimarães Rosa.

Transcrevo trechos selecionados de artigo da ISTOÉ.

"Paranaense de Rio Negro, filha de pai brasileiro e mãe alemã, separada do primeiro marido, Johannes Edward Ludwig Tess, numa época em que o casamento era sagrado, Aracy Moebius de Carvalho mudou-se para a Alemanha em 1934 para morar com uma tia e com o filho Eduardo, então com cinco anos.

Fluente em alemão, francês e inglês, encontrou trabalho no consulado brasileiro em Hamburgo, como chefe do setor de vistos. 


Chocada com a perseguição aos judeus promovida pelo nazismo, Aracy ajudou a conceder vistos a dezenas deles, talvez uma centena. Em 1938, o diplomata João Guimarães Rosa, que depois se tornaria um dos maiores escritores brasileiros, foi nomeado cônsul-adjunto em Hamburgo. Ele teve pleno conhecimento da "transgressão" de Aracy e lhe deu apoio. Casaram-se em 1940. Viveram em Hamburgo, sob bombardeios da RAF (Royal Air Force), até voltarem ao Brasil, em 1942.

O trabalho de Aracy evitou que muitos judeus tivessem o mesmo destino de milhões de vítimas dos campos de extermínio nazistas.


A solidariedade do casal a perseguidos não se limitou à época do nazismo. Em 1964, eles ajudaram o jornalista e crítico literário Franklin de Oliveira a se exilar. Em 1968, quando as trevas do AI-5 desabaram sobre o País, Aracy, já viúva, escondeu em sua casa no Rio de Janeiro o cantor e compositor Geraldo Vandré, perseguido pela repressão política. Pelo seu trabalho em Hamburgo, em 1983 Aracy de Carvalho Guimarães Rosa foi incluída entre os quase 22 mil nomes que estão no Jardim dos Justos, no Museu do Holocausto, em Jerusalém. Trata-se de uma homenagem e um reconhecimento que o Estado de Israel presta aos góim (não-judeus) que ajudaram judeus a escapar do genocídio. Entre os mais famosos estão o empresário alemão Oskar Schindler - que inspirou o filme A lista de Schindler, de Steven Spielberg - e o diplomata sueco Raoul Wallenberg. Apenas outro brasileiro, o embaixador Luiz de Souza Dantas (1876-1954), recebeu a mesma honraria, em 2003. "Discreta, sem jamais ter caído na tentação de se promover por ter sido quem foi, Aracy paga hoje o preço do esquecimento", diz o historiador e escritor René Daniel Decol, empenhado no resgate dessa personagem. "Até sua influência sobre o escritor tem sido negligenciada pela crítica, pelos historiadores da literatura e pela mídia."

Segundo a Concise Encyclopedia of the Holocaust, editada pela International School for Holocaust Studies, Yad Vashem, Aracy começou a ajudar os judeus depois do progrom ocorrido na noite de 9 de novembro de 1938, que ficaria conhecido como Kristallnacht - Noite dos Cristais. Naquela noite, hordas nazistas na Alemanha e na Áustria atacaram e destruíram sinagogas, residências e estabelecimentos comerciais judaicos, matando cerca de 90 pessoas, marcando o início da repressão aos judeus que terminaria na "solução final", o extermínio puro e simples. Apesar de ter um filho pequeno e a mãe que dependia dela, Aracy não se intimidou. "Minha mãe achava aquilo tudo injusto, ignorou a determinação do Itamaraty e, com a maior discrição, continuou a preparar os processos de vistos para judeus, à revelia de seus superiores", disse a ISTOÉ o advogado Eduardo de Carvalho Tess, filho de Aracy. Para tanto, ela contou com a cumplicidade de um funcionário da polícia de Hamburgo, que emitia passaportes para judeus sem o infame "J" vermelho que os identificava como tais. Isso viabilizava a emissão de vistos para eles, que passavam por europeus. "Depois, ela enfiava os vistos no meio da papelada que despachava com o cônsul-geral, que os assinava sem ver", diz Tess.

[Utilizava] clandestinamente o carro do serviço consular para transportar judeus que se escondiam em sua casa e em casas de amigos e para distribuir entre eles alimentos que ela desviava da cota que o consulado recebia - na época da guerra, a Alemanha vivia sob racionamento. "Muitas vezes, ela transportou judeus no porta-malas do carro do consulado. Eu me lembro que era um Opel Olympia alemão. Chegou a levar uma pessoa até a Dinamarca", diz o filho. Personalidade forte, Aracy não se intimidava quando era parada pela Gestapo. Pelo menos uma vez, enfrentou os policiais de dedo em riste, desconcertando-os com seu alemão impecável. "Minha mãe exibia muita segurança e autoridade, os alemães respeitavam a autoridade."

Testemunhos de judeus que foram salvos por Aracy contam que ela os acompanhava até o camarote do navio para assegurar proteção diplomática e, muitas vezes, levava as jóias, bens e dinheiro dos refugiados em sua bolsa para evitar que fossem confiscados pela polícia nazista. Uma delas é Maria Margareth Bertel Levy, que também está prestes a completar 100 anos e, por problemas de saúde, já não pode mais falar. Em 2006, contudo, ela gravou um depoimento ao historiador René Decol: "Aracy me levou pessoalmente ao navio, usando seu passaporte diplomático." Margareth talvez seja a última das pessoas salvas por Aracy ainda viva. "Pelas informações que tenho, minha mãe deve ter salvo, no total, cerca de 100 pessoas", calcula Tess. Uma das poucas vezes que Aracy falou sobre si foi em 1983, quando recebeu a homenagem do Estado de Israel: "Nunca tive medo, quem tinha medo era o Joãozinho (o escritor Guimarães Rosa). Ele dizia que eu exagerava, mas não se metia muito e me deixava ir fazendo", disse Aracy ao Jornal do Brasil. (...)

De volta ao Brasil, ela se dedicou inteiramente a colaborar com a atividade literária do marido. Mas ainda voltaria a desafiar o arbítrio. O escritor Franklin de Oliveira relata no prefácio de 1992 de Grande sertão: veredas, que em 1964, quando começou a caça às bruxas, Aracy e Guimarães Rosa quiseram que ele fosse se esconder na casa deles. A oferta foi recusada, e então eles organizaram uma lista de embaixadas nas quais o escritor pudesse buscar asilo. Em 1968, pouco depois de ter se tornado viúva, Aracy participava de reuniões de intelectuais que se opunham à ditadura militar no País. No dia 13 de dezembro, quando o regime baixou o AI-5, um dos artistas caçados pela polícia encontrou guarida no apartamento de Aracy no Posto 6, Arpoador, com vista para o Forte de Copacabana. Era o compositor Geraldo Vandré, autor de Pra não dizer que não falei das flores. "Do apartamento, ele podia ver a movimentação de soldados e policiais na rua", diz Tess."



Fontes:
http://www.terra.com.br/istoe-temp/edicoes/1994/artigo70598-1.htm
http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/102/na-alemanha-joao-guimaraes-rosa-conheceu-aracy-7339.html
http://www.arqshoah.com.br/justo/5/
http://www.velhosamigos.com.br/foco/aracyguimaraesrosa.html
http://www.elfikurten.com.br/2013/05/joao-guimaraes-rosa-o-demiurgo-do-sertao.html




3 comentários:

  1. Olá,

    Vi o seu interesse por Aracy Moebius de Carvalho, e lembrei que existe um documentário sobre a sua vida. Eis aqui o link:https://vimeo.com/103953268

    Espero que sirva. Um grande abraço.

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    1. Muito obrigada, Danilo!!! :)

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    2. Já comecei a asistir1 Um grande abraço para você também.
      Elisa.

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