08/04/2015

Entrevista: Casais no Itamaraty - Parte III

Após ler a página 46 do livro  "Por dentro do Itamaraty: impressões de um diplomata", de André Amado, decidi realizar uma entrevista com três casais de diplomatas: um casal de homem e mulher; um casal de homens; e um casal de mulheres, sobre as dificuldades e facilidades de um relacionamento com alguém da carreira. Não identificaremos os casais em nenhum dos posts.

Neste terceiro post da série "Casais no Itamaraty", transcrevo as respostas de alguém da carreira de Diplomata. 

Foto: Tatuagens para casais

Pergunta: Você acredita que o relacionamento entre diplomatas é mais fácil do que com pessoas de outras carreiras? Por que?

Resposta: Absolutamente. Pela natureza da carreira, diretamente relacionada à vida no exterior, pessoas de outras profissões geralmente precisam abdicar de sua carreira para acompanhar o diplomata em outros países. Exceções são feitas, naturalmente, aos profissionais liberais, autônomos, artistas, escritores e acadêmicos, que geralmente podem exercer sua profissão a distancia, mas, ainda assim, algum grau de adaptação será sempre necessário. 

No caso de diplomatas, essa mudança para outro país será sempre mais acertada e natural, já que ambos continuam exercendo normalmente suas profissões no exterior. Além disso, ha a questão salarial. No Brasil, pessoas de outras carreiras, com salario muito abaixo ou mesmo muito acima do diplomata podem sentir certo desequilíbrio na partilha das contas do casal. No entanto, acho que a questão salarial se faz sentir muito mais no exterior, já que a renda somada dos dois diplomatas pode ser essencial para garantir aos filhos uma boa educação, sobretudo em países de menor desenvolvimento relativo, onde os custos de escolas internacionais podem ser exorbitantes. 

Eu citaria, ainda, um último fator, muito mais subjetivo que os outros dois, que e uma espécie de inserção no “universo Itamaraty”. O MRE é um mundo a parte, com códigos, regras e cultura próprios. Cada diplomata passa pelo menos oito horas diárias nesse ambiente, e, naturalmente, alguns comentários/historias/anedotas/fofocas a serem comentados com o parceiro estarão relacionadas ao trabalho. Eh muito mais simples partilhar essas histórias com alguém já inserido nesse mesmo contexto. Pessoas de outras carreiras poderiam não ter interesse nessas historias ou precisar de muitas explicações adicionais para entender determinados comentários. Em suma, tendo a crer que, em conversas relacionadas a trabalho, o papo flui melhor entre diplomatas.  


Pergunta: Você encontrou dificuldades por se relacionar com alguém da carreira? Se sim, quais?

Resposta:  Sim. Comumente chamamos o Itamaraty de “Casa”, e não é à toa. O ambiente como um todo é de uma casa, na qual todos se conhecem e onde tudo é comentado. Casais de diplomatas dificilmente passarão despercebidos das fofocas alheias (risos). Ouço historias bizarras sobre casais de diplomatas que se separaram, adultérios, brigas terríveis, e é triste saber que as pessoas perdem tanto a privacidade simplesmente porque ambos são da carreira. É como se houvesse sempre alguém observando.

Ha, ainda, questões mais concretas, como a necessidade de coordenação de ferias entre as diferentes chefias, pra que ambos possam harmonizar o período de descanso, assim como discussão de remoções futuras (encontrar um país que agrade a ambos e que seja do alcance dos dois é muito mais difícil do que parece). 

Finalmente, eu citaria uma armadilha de qualquer relacionamento envolvendo pessoas da mesma carreira: ficar fechado com o parceiro apenas nesse tipo de contexto. Se ambos começam a falar o tempo todo de trabalho, isso pode ser particularmente critico, sobretudo em períodos de ferias, por exemplo. Pode ser necessário verificar automaticamente se assuntos relacionados a trabalho estão tomando conta da agenda do casal, e impor restrições, caso preciso. É saudável que um casal compartilhe muito mais assuntos do que apenas temas relacionados ao trabalho, não eh? Francamente, a alegria que temos em passar horas montando juntos um quebra-cabeças é muito maior do que comentar do telegrama, por exemplo,  embora essas fofocas também sejam bastante interessantes (risos). No fundo, ninguém quer ficar falando do trabalho o tempo todo.
  

Pergunta: Como vocês coordenam o desenvolvimento das duas carreiras em paralelo? Essa é uma questão relevante para vocês?

Resposta:  Muito relevante. Pode ser que em algum momento, um de nos seja hierarquicamente superior ao outro, e isso deverá ser conversado e discutido, de modo a não prejudicar a relação. O que mais nos preocupa no momento é a remoção. É preciso coordenar quanto tempo ficar em Brasília, para qual país queremos ir, se vamos para o mesmo Posto em uma mesma cidade, se vamos para Postos diferentes em uma mesma cidade, se vamos para Postos em cidades diferentes, mas geograficamente próximas, etc. Segundo porque é preciso achar um Posto que seja do agrado dos dois e ao alcance dos dois. 

Quem não gostaria de ficar dois anos em Nova York ou Paris? Isso significa que pode haver uma fila de espera quilométrica para esses Postos, o que já os torna fora de cogitação para uma remoção. E ainda por cima, é preciso achar vaga para duas pessoas, o que pode ser muito complicado.  Já passamos um tempinho olhando os Postos, salários, custo de vida e etc., e longas horas mais tarde, decidimos que valeria a pena pedir remoção para um posto X.  Apenas depois de tudo isso, fomos informados que o Posto só tem vaga para um diplomata da nossa classe, o que inviabilizou todos os nossos esforços prévios. Em efeito, a maior parte dos Postos com muitas vagas são justamente aqueles mais difíceis de conseguir (em países A ou B), e, nesse sentido, o casal precisa ter algum tipo de politica interna no Itamaraty (transito com as Chefias, dialogo aberto com Chefes dos Postos, etc). O processo todo é bem desgastante. 

Também discutimos coisas comuns a qualquer casal, como o melhor momento para ter filhos, o melhor momento para casarmos, a necessidade de poupança, etc. Alguns fatores adicionais (que não fazem parte das discussões dos casais tradicionais), no entanto, acabam entrando no nosso debate, como: em que língua educar os filhos, se deveríamos esperar voltar ao Brasil para começar a escolarização, etc. É praticamente um planejamento familiar tradicional de qualquer casal, mas com uma pitada extra de internacionalidade.

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