05/04/2015

Entrevista: mães no Itamaraty - Parte II

Esta é uma série de entrevistas sobre temas relativos à vida na chancelaria. Numa primeira fase, falaremos de filhos. Formulei sete perguntas e enviei a quatro mães, que gentilmente aceitaram o meu convite. Espero que as respostas que compartilharemos possam ajudar a outras mulheres que se encontram na mesma situação. 

A primeira entrevista foi com Carolina, que está em Chicago e tem um filho de dois meses. A segunda, é com Celina, que mora em Montreal e tem um filho de nove meses. 


Celina, 31 anos, é formada em Relações Internacionais, pós-graduada em Administração de empresas e (até quando foi possível) atuou em consultoria de empresas. Casada com Cassiano, diplomata desde 2010. Viveram em Libreville de 2012 à 2014 e desde abril de 2014 estão em Montreal. São pais do Nicolas, 9 meses.


Desde que decidimos sair de Brasília para o exterior, o nosso maior cuidado foi para que o bebê nascesse em um país com recursos médicos, livre de conflitos, doenças endêmicas e de riscos de desastres naturais, para que pudéssemos aproveitar desse momento tão esperado com tranquilidade. Logo após o término do curso no Instituto Rio Branco decidimos partir para a nossa primeira missão no exterior, ainda sem filhos, para um posto D (que concentram os países mais difíceis para viver e têm, devido a isso, os maiores salários da carreira). O plano era enfrentar as dificuldades do posto D, no caso Libreville, no Gabão, aproveitar para viajar e conhecer a África e também, tentar poupar para a chegada do nosso pequeno. O maior problema para se ter filhos em Libreville é que a região se trata de uma área onde a malária é endêmica, com milhares de mortes todo ano, especialmente de grávidas e crianças. A missão terminou quando eu estava chegando aos 7 meses de gestação e então fomos removidos para Montreal, no Canadá, para a Missão do Brasil junto à Organização da Aviação Civil Internacional (OACI).

Da descoberta da gravidez até o seu final visitamos 7 médicos, em 4 países (!). Imaginem isso! Descobrimos a gravidez quando estávamos passando férias na Alemanha e visitamos um médico, voltamos para Libreville e fui à busca de médicos para fazer o pré-natal e na quarta tentativa achei uma médica bastante atenciosa. No recesso de final de ano fomos ao Brasil para curtir a notícia com a família e com os amigos, onde aproveitei para visitar meu médico e fazer todos os exames possíveis, pois não havia muitos recursos modernos no Gabão. E, enfim, a sétima médica (ufa) foi em Montreal, indicada pelos funcionários locais da Missão. 

O fato de se tratar de um primeiro filho, de estarmos no exterior, longe da família e dos amigos, já causa uma certa insegurança, mas soma-se a isso muitos fatores de tensão, como realizar uma mudança continental, tomar diversas providências burocráticas, cruzar o globo, morar um tempo em hotel, procurar uma nova casa, ir a consultas médicas, comprar enxoval do bebê nos últimos e pesados meses de gravidez  (sim, a barriga pesa muito) e se ambientar à nova cidade, tudo isso em outra língua... Definitivamente é um grande desafio, que demanda muito desprendimento, equilíbrio emocional e, claro, uma dose de sorte, pois tivemos que torcer para que o bebê não chegasse antes da data prevista. E deu certo! Nosso container chegou no dia 01 de junho, já na casa nova e o Nicolas chegou no dia 19, ou seja, ainda tive quase 20 dias pra ajeitar tudo...tranquilíssimo (hahaha)! 

Acho que as dificuldades com pré-natal e parto teriam sido muito mais maiores se tivéssemos ficado no Gabão. Talvez eu tivesse ido ao Brasil para ter o bebê. Em Montreal, assim como em outros países, um aspecto bastante diferente  é que os médicos estrangeiros são bem menos personalistas. Algumas pessoas podem achar que sejam frios ou até que as consultas são muito rápidas por serem nada detalhistas, mas eu não vejo isso como uma barreira ou grande dificuldade. Talvez a maior dificuldade seja expressar em outra língua coisas muito subjetivas que sentimos durante a gravidez. Por mais que nós fizéssemos uma lista mental antes das consultas e pesquisássemos os termos médicos, sempre senti que queria ter explicado mais e melhor... eu pensava muito sobre como seria na hora do parto, se eu conseguiria falar em outra língua, mesmo estando com dores ou "sei lá o que", mas funcionou muito bem. Acho até que algumas vezes, ali na hora da correria, eu estava entendendo melhor que meu marido! 

Claro que com toda essa grande movimentação - mudança, bebê, container chegando, Copa do Mundo (hehehe) - chegou reforço familiar para nos ajudar. Foi imprescindível ter pessoas da família no meio dessa correria toda, foram dias muito agitados e também muito felizes. O ano de 2014, sem dúvidas, vai ficar marcado pra nós como o mais movimentado de nossas vidas (até agora). Pretendemos seguir no exterior ainda mais alguns anos, assim nosso aventureirinho terá a oportunidade de ter seus primeiros passos escolares numa ambiente multicultural, o que pra nós é motivo de muita alegria e realização de um sonho.


Um comentário:

  1. Parabéns Celina e Cassiano pela chegada do Nicolas, este novo integrante desta aventura da vida diplomática! Acompanhei a historia de vocês até quando vieram ao Brasil festejar com a família a gravidez. Fui à casa da Elisa esta semana e comentei sobre vocês e ela me disse que estavam bem e no Canadá. Fiquei feliz ao ver o post aqui no blog e saber que tudo enfim correu bem. Aproveitem cada momento da vida de Nicolas, pois passa muito rápido, eu que o diga, pois meu mais velho acabou de entrar na universidade e parece que foi ontem que eu estava trocando suas fraldas…rsrs. Bjs Juliana Lucas

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