06/04/2015

Entrevista: mães no Itamaraty - Parte III

Esta é uma série de entrevistas sobre temas relativos à vida na chancelaria. Numa primeira fase, falaremos de filhos. Formulei sete perguntas e enviei a quatro mães, que gentilmente aceitaram o meu convite. Espero que as respostas que compartilharemos possam ajudar a outras mulheres que se encontram na mesma situação.

A primeira entrevista foi com Carolina, que está em Chicago e tem um filho de dois meses. A segunda, foi com Celina, que mora em Montreal e tem um filho de nove meses. A terceira entrevista será com Vânia, que mora em Lisboa e é mãe de quatro filhas, de 22 a 31 anos.

Meu nome é Vânia, 60 anos, pedagoga, casada com Mario, atualmente embaixador do Brasil em Lisboa, que ingressou na carreira diplomática em 1976 , ano em que nos casamos e mudamos para Brasília  (Instituto Rio Branco era então no Rio de Janeiro). Nossos postos no exterior foram: Washington, de 1978 a 1982; Pretoria, de 1982 a 1985; Roma, de 1985 a 1987; Lisboa de 1991 a 1993; Boston, de 1996 a 1999; Santiago, de 2006 a 2010 e Lisboa desde 2010. De 1987 a 1991 e de 1999 a 2006, estivemos em Brasília. Tenho 4 filhas: Carolina, 34 anos, nascida em Washington DC; Carlota, 31 anos, nascida em Pretória RAS; Catarina, 24 anos, nascida em Brasília; e e Camila, 22 anos, nascida em Lisboa .

Esperamos 4 anos antes de decidirmos ter o nosso primeiro bebê. Quando fomos removidos para Washington , já estávamos preparados para ser pais, tanto emocionalmente quanto financeiramente. Em cada país, tive experiências diferentes, algumas mais difíceis e complicadas, mas todas enriquecedoras do ponto de vista cultural e humano . Por exemplo, nos anos 80, nos EUA, o parto normal e "natural" (literalmente ) era a opção. Cesariana era apenas em casos de extrema necessidade. A relação médico/ paciente era exclusivamente profissional, sem nenhuma empatia. O que por um lado era muito bom e confiável, por outro era insuficiente, porque fazia falta o "jeitinho carinhoso" dos médicos brasileiros.

A África do Sul nos surpreendeu, com uma medicina avançada e excelentes hospitais, mas com algumas características muito peculiares. O médico era o "de família". Isto é, era o obstetra, o pediatra, o clínico geral, enfim era tudo. No começo, estranhei, mas depois vi que havia muitas vantagens nesse costume . O especialista só era recomendado se necessário. Os partos eram feitos por parteiras e o médico só acompanhava. No meu caso, por ser estrangeira e não estar habituada, pedi que fosse o próprio médico. Tive um parto induzido, com algumas dificuldades, mas, no final, tudo se resolveu. 

Em Brasília, tive um médico muito atencioso, mas não tive muita sorte com a Clínica, considerada uma das melhores, porém deixando muito a desejar em higiene . Em Lisboa, embora falassem mal da medicina na Europa, de um modo geral , não tive problemas e tudo correu bem. Talvez por já ter passado por três experiências, aceitei melhor os contratempos que iam surgindo. Lembro bem da falta de paciência das enfermeiras portuguesas com as pacientes queixosas, embora não fosse o meu caso .  
Na verdade, não fizemos opções de lugares, mas íamos nos organizando de acordo com as circunstâncias. Aliás, uma das coisas que essa carreira me ensinou, é não ficar presa a planos pré-estabelecidos, mas ir administrando a vida de acordo com as oportunidades. No meu caso, tive a sorte de ter a ajuda de minha mãe nos primeiros meses, que vinha do Brasil , sempre que nasciam as netas. Sei o quanto isso é importante, mas também sei que nem sempre é possível e que também se sobrevive. Nunca planejei criar meus filhos fora do Brasil, simplesmente as circunstâncias fizeram com que elas tivessem uma formação internacional. Procurei respeitar alguns critérios para que tivessem uma educação linear e estruturada (no caso, optei por manter minhas filhas no sistema americano/inglês), mas nunca as deixando esquecer  as suas origens.

Por último, gostaria de desejar aos cônjuges que estão iniciando essa vida de  "nômades", acompanhando os seus parceiros/as , que consigam aproveitar todas as oportunidades e tirar o melhor proveito de cada uma delas. Todo lugar , por mais difícil que seja, tem o seu encanto e sempre nos traz alguma lição. Tudo tem seu lado negativo e positivo e hoje, depois de 39 anos nessa vida, posso dizer que a nossa experiência, como família, tem um saldo positivo . Todas as dificuldades podem ser revertidas em benefícios, se soubermos aprender com elas. A vida, nem sempre é fácil para os nossos filhos, que de três em três anos  são "arrancados" do seu ambiente, dos seus amigos, dos seus namorados etc ... . Porém, se eles tiverem uma boa estrutura familiar, um ponto de referência forte e sólido, saberão enfrentar as adversidades, transformando-as em alicerce para as suas vida. 

O mundo mudou e hoje os recursos são muitos. Vivi em uma época que não existia computadores, celulares, skype , whatsApp  etc. E sobrevivi . Hoje, os cônjuges podem trabalhar na maioria dos países estrangeiros e muitos podem dar seguimento às suas carreiras. Continuamos a ter alguns problemas (alguns são os mesmos ) e por isso a AFSI pode ser de grande valia para que a carreira diplomática continue a ser a melhor ferramenta para que o Brasil se faça representar no exterior, com respeito e dignidade . 


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