08/04/2015

Entrevista: mães no Itamaraty - Parte IV

Esta é uma série de entrevistas sobre temas relativos à vida na chancelaria. Numa primeira fase, falaremos de filhos. Formulei sete perguntas e enviei a algumas mães, que gentilmente aceitaram o meu convite. Espero que as respostas que compartilharemos possam ajudar a outras mulheres que se encontram na mesma situação.

A primeira entrevista foi com Carolina, que está em Chicago e tem um filho de dois meses. A segunda, foi com Celina, que mora em Montreal e tem um filho de nove meses. A terceira entrevista foi com Vânia, que mora em Lisboa e é mãe de quatro filhas, de 22 a 31 anos. A quarta entrevista será com Carolina.


Carolina, 34 anos, Psicóloga Clínica e Executive Coach, casada com Eduardo, diplomata desde 2006. Com o meu marido vivi em Washington D.C por três anos e meio e desde o ano passado, me encontro em Santiago, Chile. Com o meu pai, também diplomata, vivi em Washington D.C, EUA; Pretória, África do Sul; Roma, Italía; Brasília, Brasil; Lisboa, Portugal; Boston, EUA. Somos pais de Felipe (3 anos) e Julia (1 ano). Ambos nascidos em Washington D.C, EUA.




Quando soube que estava grávida, ainda em Brasília, não sabíamos que iríamos ser removidos em tão pouco tempo. Mas a ideia de ter o meu filho no exterior era bastante confortável para mim, já que eu também nasci e cresci no estrangeiro. Era, no fundo, minha “zona de conforto”. Como filha de diplomata, e agora esposa, eu não sei o que é NÃO estar em constante transição e remoção. Sou nômade por natureza, e quando fico muito lugar em um tempo vai me dando uma coceira...

Quando soube então que íamos para Washington, a alegria foi imensa. Parecia que estava completando um ciclo de 360 graus. Nasci em Washington D.C, e poderia compartilhar essa conexão com o meu filho (e mais tarde, minha filha). Conexões de tempo e lugar são muito importantes para nós, que crescemos sem âncora de alma ou identidade. Como eu também sempre estudei em escolas e universidades americanas, os EUA eram minha segunda casa. Talvez, em certos aspectos, até minha “primeira”. Não havia nenhuma barreira linguística ou cultural. E eu sempre me dei muito bem com o jeito mais objetivo e curto dos médicos americanos, e total confiança no sistema hospitalar deles, logo minha ansiedade ao embarcar com 8 meses de gravidez rumo aos EUA era praticamente zero.

Sabia que nos EUA eu poderia comprar (em termos materiais) o melhor para o meu filho com os preços mais baratos. E de fato, o enxoval , junto com os móveis todos que compramos para o baby foram ¼ do preço que seriam no Brasil e tudo de excelente qualidade. Porém, os gastos médicos nos pegaram de surpresa. Um parto de cesária no EUA, que acabou sendo o meu caso, custo 14 mil dólares, e uma ultrassonografia pode chegar a até 999 dólares. Lá, eles também têm o costume de fazer apenas três ultrassonografia durante a gravidez inteira (um por trimestre) e você tem que ir a um centro especializado só em ultras. Embora alguns consultórios médicos já vêm com um equipamento de ultra um pouco menos avançado e dá para dar uma “espiadinha” no bebê.  A consulta médica gira em torno de 180 dólares, mas os exames de sangue de de urina, que são frequentes e feitos ali mesmo no consultório médico, a consulta pode chegar a 400 ou mais dólares. (Lembrando que o Seguro Saúde do Itamaraty só paga 80% de todas despesas médicas).

Nos EUA, é comum a grávida ser vista por uma equipe médica e não um médico em específico. E quem estiver de plantão, é que faz o seu parto. Esse método é bem impessoal, e as vezes calha de o único médico que nem te tocou durante todo o pré-natal fazer o seu parto (foi o caso da minha mãe no meu parto, que quase enfartou quando viu qual médico era..). Mas hoje em dia há também a opção (um pouco mais cara) de ter um médico que trabalha sozinho e que garante estar presente no nascimento do bebê. Também há uma vasta opção de partos alternativos com parteiras, doulas ou em casa ou em “Laboring Centers”. É comum a grávida fazer um “Birth Plan” delineando o que gostaria que acontecesse durante o seu parto, com quem, como, de que maneira, quais procedimentos está disposta a tentar, quais não. Tudo à cardápio. Lembrando que os EUA tem uma taxa nacional de cesárias de 33%, muito menor a do Brasil, e o parto normal é sempre a opção mais indicada dos médicos / parteiras.

No meu caso em particular, eu havia optado por um parto normal e “natural” (sem epidural) dentro de um hospital bem-conceituado (O Sibley Hospital) e pertinho de casa, para dar luz ao meu menino. O médico foi uma “herança” de uma amiga, diplomata, que também estava se consultando com ele na mesma época e que aceitava pacientes de última hora. Esperei então até o meu filho começar a dar sinal de que queria sair  (que foi às 22h do dia 05 de maio) e fiquei em casa até não aguentar mais as dores da contração (03:00 da madrugada do dia 06 de maio) e dirigimos então até ao hospital. Infelizmente, algumas horas depois de chegar no hospital, soubemos que o Felipe estava em sofrimento fetal e que teríamos que optar por uma cesária de emergência.

 A cirurgia foi super tranquila, mas nos EUA eles permitem apenas que uma pessoa acompanhe a mãe e não se pode tirar fotos nem filmar durante a cesária. O meu filho saiu muito menor do que o previsto, e até hoje fiquei com a sensação de que foi porque eu não pude fazer mais ultrassonografias depois da vigésima-nona semana (era muito caro e o médico desencorajou). Como o Felipe também desenvolveu icterícia, e os americanos são ultra-conservadores  e cuidadosos (e porque também não é uma cidade tropical cheia de sol), ele teve que passar 24 horas na incubadora na UTI Natal por causa de sua leve coloração amarela. Isso foi um choque para mim, que queria ficar do ladinho dele o tempo todo.

Diga-se de passagem, para não desanimar as mamães que sonham em ter um parto normal: eu fui um caso excepcional. Das doze outras esposas de diplomatas (ou próprias diplomatas) que tiveram filhos em Washington (é um lugar popular entre as mamães!) as nove que quiseram ter parto normal, conseguiram numa boa, as outras três optaram por cesarianas planejadas.

O pediatra que acabei escolhendo para o meu filho foi indicação do meu obstetra. Não tive muita boa experiência com ele, o Dr. Balfour. Era caro, fazia mil exames desnecessários no meu filho (e depois filha) e me alarmava muito em vez de me tranquilizar. Eu acabei ficando nele o tempo todo por pura preguiça de mudar todos os “medical records” e etc. E também me consultava paralelamente com uma médica de família alternativa que tinha uma linha natural (SUPER difícil de achar no EUA. Homeopatia então, esquece!).

Depois, na gravidez da Julia, procurei outro obstetra porque estava na dúvida se fazia outra césaria ou não e meu primeiro médico era contra. Mudei quatro vezes de médico, até finalmente optar por uma obstetra que me aceitou também no final da gravidez e foi super gentil e compreensiva comigo. Acabei fazendo uma segunda cesária pois a Julia passou do prazo que eu tinha estabelecido para mim mesma que iria esperar.

Julia veio gorda e saudável e foi direto para o meu quarto. E dale conta médica! Sem dúvida, foi o nosso maior gasto (fora a escola do meu filho) nos EUA, e um que quase nos deixou em dívida. Um contra-tempo também em ter filhos pequenos nos EUA, é que ajuda é muito cara (paga-se 1.800 dólares por mês) então muitas mamães optam por não ter ajuda em casa e acabam se confinando aos afazeres domésticos e aos cuidados das crianças. Tive a grande sorte de poder contar com minha mãe e, logo depois, minha sogra e minha irmã que ficaram conosco durante os primeiros três meses de vida de ambos meus filhos.  Foi uma ajuda absolutamente essencial, principalmente porque a licença paternidade é de apenas 5 dias e meu marido não iria conseguir trabalhar se tivesse que me ajudar sozinho com as mamadas da madrugada.

Decidi por o meu filho em um “day care” antes do nascimento da Julia para poder dar conta da minha pequena depois que ela chegasse. As escolas privadas nos EUA são carésimas (variam entre 1.500 dólares a 2.500 dólares por mês), e não há outra opção (já que escola pública só a partir dos 5 anos) para crianças pequenas.


Porém, as atividades e as oportunidades culturais para as crianças de todas as idades em Washington é simplesmente fora de série. Você tem parques públicos que parecem verdadeiros parques de diversão para bebês, tem teatros e bibliotecas que realizam atividades grátis, existem playgroups e playdates com outros pais, e um milhão de aulas de música, natação e ginásio para “infants and toddlers” que ajuda a passar o dia e a desfrutar a linda cidade com seus pequenos.

Eu estou muito feliz em poder criar meus filhos do jeito que fui criada. Gosto da ideia de eles crescerem no exterior, então não tenho pressa de voltar para a SERE, embora,claro, acho importante eles vivenciarem o Brasil nas férias e, em algum momento, por um período longo e intenso. Talvez porque meus pais souberam transmitir uma experiência muito positiva em relação as constantes transições e mudanças na minha vida, sem me deixar esquecer minha cultura de origem, meu português e meu orgulho de ser brasileira, sinto que é uma opção bastante rica para meus filhos também.  Gosto da ideia de eles crescerem bilíngues (ou trilíngues) como eu, de podermos intercambiar idiomas e raciocinar em várias línguas. Acho que ajuda a abrir “janelas e portas”, não somente profissionais, mas de tolerância, compreensão, e empatia.

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