20/04/2015

Marie Philomène Stevens: uma diplo wife

Após falarmos de Clarice Lispector, queria apresentá-los a uma Diplo Wife do século XIX: Marie Philomène Stevens, esposa de José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, ou simplesmente Juca (olha eu de intimidade com o patrono). Não encontrei obras que tratam especificamente sobre a vida dela, parece que Marie está na mente dos historiadores como uma coadjuvante, uma sombra do Barão ou até mesmo um empecilho. Mas Marie foi de extrema importância para a diplomacia brasileira, haja vista que por causa do seu relacionamento com Juca, vários fatos se sucederam na carreira do então jovem diplomata.

Neste dia 20 de abril, aniversário do Barão do Rio Branco, gostaria de celebrar também sua diplo wife. 


Seguem trechos sobre a vida de Marie e Juca:


"Em 1876, conseguiu ser nomeado para o bem remunerado posto de cônsul geral em Liverpool, na Inglaterra, após vencer tenaz resistência de D. Pedro II e da princesa Isabel, escandalizados com sua reputação de boêmio na tacanha atmosfera provincial da Corte.  Já naquele tempo, mantinha ligação amorosa com a atriz belga Marie Philomène Stevens, com a qual só legalizaria a união muitos anos depois, em 1889."
Trecho do blog amantesdeclio.blogspot.com.br

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"Frequentador de casas de espetáculos e restaurantes por onde circulavam os membros da elite carioca, [O Barão do Rio Branco] conhece a atriz , com quem iniciou um romance, que deu origem a um escândalo na tradicional sociedade da época. Em 1873, sob pressão do pai, na época chefe de gabinete ministerial, Marie Philomène embarca de  volta para a França, onde nasceu o primeiro dos cinco filhos que o Barão teve com ela. Em 1898, Marie vem a falecer, depois de uma longa enfermidade." 
Coleção Livro na Rua nº 2, de autoria de M. P. Haickel, que pode ser lido na íntegra clicando AQUI.

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"Juca só se casou com Philomène em 1888, depois de receber o título de Barão do Rio Branco. Ela morreu em 1898, e ele, em 1912. O casal teve cinco filhos: Raul, Clotilde, Hortênsia, Paulo e Amélia. Raul, que seguiu a carreira de diplomata, foi o primeiro brasileiro eleito para o Comitê Olímpico Internacional. Já Paulo foi o primeiro jogador brasileiro de rugby com fama internacional. Mas aí são outras histórias."
Fonte: oglobo.globo.com

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Se a filiação não importa, por que o próprio visconde não reconheceria seus netos, filhos de uma união não-oficial entre o barão e uma atriz belga, Marie Philomene Stevens? A respeito desta não há nenhuma informação genealógica. Ela aparece nas biografias como um fardo que Rio Branco teria que suportar a partir do nascimento de seu primeiro filho, por questões de bom cumprimento do dever paternal. Não obstante, apesar de se denominar um vieux garçon, por não ser casado, ele teve mais quatro filhos com ela. O primeiro, Raul, nasce em 1873. O casamento entre Rio Branco e Marie Stevens só se efetua em 1889, quando a filha mais nova já tem cinco anos. Por outro lado, a viscondessa e as filhas do barão são retratadas como belas e de "finos tratos", ajudando os dois Rio Branco a "receber" figuras ilustres do Império e da República, brasileiras e estrangeiras, com toda a pompa e cerimônia. Para os homens, portanto, há a possibilidade da "fidalguia pela ação", ainda que o "bom nascimento" seja desejável; já às mulheres resta somente o bom nascimento e um casamento bem feito. Não havendo nenhum dos dois, talvez a maternidade seja uma forma de redenção póstuma."
Herança e Metamorfose: a Construção Social de dois Rio Branco, por Cristina Patriota de Moura, que pode ser lido na íntegra, clicando AQUI.

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Trechos de BARÃO DO RIO BRANCO: 100 ANOS DE MEMÓRIA, organizada por Manoel Gomes Pereira e que pode ser lido na íntegra clicando AQUI.


"Não lhe faltaram, no entanto, contrariedades e angústias. No início de 1872, Juca encontrou no Alcazar Lyrique uma jovem belga chamada Marie Philomène Stevens, de 22 anos, por quem se apaixonou. O casamento era impossível, pois ela era apenas uma bela atriz de pouca instrução, que viera faire l’Amérique no Rio de Janeiro. Juca Paranhos parecia bastante ingênuo, talvez cego pelo amor, pois chegou a escrever para um amigo dizendo que Marie lhe havia chegado aos braços “perfeitamente pura!”. Logo ela engravidou e, ao longo de 26 anos de convívio interrompido, tiveram cinco filhos. Quando foi nomeado para Liverpool, o Barão do Rio Branco instalou-a em Paris, onde viveu até morrer, em 1898. Nunca mais regressou ao Brasil. No entanto, demoraram a casar-se, o que finalmente ocorreu em 1890, em Londres, quando os primeiros filhos já eram quase adultos."
A mocidade do Barão do Rio Branco e sua tormentosa nomeação para a carreira diplomática, por Vasco Mariz. Página 24.

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"A conjuntura era favorável para dar o bote final para a nomeação de Juca Paranhos. Todavia, como o imperador planejava longa viagem ao exterior, era prudente esperar um pouco mais e só atacar durante a regência da princesa Isabel. No entanto, apesar de todo o empenho pessoal de Cotegipe, falharam duas tentativas: uma ainda com dom Pedro II e outra com a regente. Contudo, aproximava-se a última instância para Juca Paranhos, pois o Gabinete Caxias não duraria muito, tão débil estava o presidente do Conselho. Com os liberais no poder, não haveria a menor chance de obter a nomeação, por mais mérito tivesse o candidato Paranhos.

Foi então jogada a última cartada, e o papel de Caxias foi decisivo. No ínterim, a situação do rapaz piorava bastante. Sua ligação amorosa com Marie Philomène já durava três anos, nasceram-lhes dois filhos e um terceiro estava a caminho. Para o cúmulo da complicação, esmoreceu seu entusiasmo pela namorada, e ele se encantava cada vez mais por uma jovem de apenas 15 anos, a belíssima Maria Bernardina, filha do visconde de Tocantins, irmão de Caxias e também um dos melhores amigos de seu pai. O imbróglio estava feito, e Luiz Viana escreveu: “Essa nova inclinação amorosa o obrigava a medir cada passo e a pesar cada palavra. Como conseguiria ele, na embaraçosa situação em que se encontrava, conciliar tantas coisas contraditórias?”
A mocidade do Barão do Rio Branco e sua tormentosa nomeação para a carreira diplomática, por Vasco Mariz. Páginas 25-26.

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"Logo após a tão esperada nomeação, Marie Philomène e seus filhos embarcaram para a França, enquanto Juca Paranhos preparava a sua partida. Com auxílio de seu amigo Bezzi, continuava a acalentar a esperança de resolver satisfatoriamente seu problema de família, desligando-se de Marie Philomène, para depois casar-se oficialmente com Maria Bernardina. Em setembro, partiu para Paris, via Lisboa, com destino a Liverpool. Começava a caminhada brilhante que o levou a ser um dos próceres da nação.

Um mês depois, o jovem cônsul-geral almoçava tristemente em um restaurante galês e olhava melancólico para o céu cinzento através dos grossos vidros de uma janela. Era Liverpool e chovia. Pensava na bela Maria Bernardina e censurava seu pai por não lhe haver arranjado um emprego mais perto dela. Contudo, o jeitinho brasileiro em breve funcionaria: o principal colaborador de Paranhos, o vice-cônsul, contou-lhe que seu antecessor dava longas escapadas para Londres, onde tinha um apartamento permanente. Com tal exemplo, não censurado pelo Itamaraty, o novo diplomata passou a fazer largas temporadas em Paris, onde se consolava nos braços de Marie Philomène e brincava com seus filhos pequenos.

O esquema estava montado, funcionou bem anos a fio, e Juca aproveitou para fazer pesquisas sobre o Brasil nos arquivos históricos de Paris e das vizinhanças. Lembro que os vice-cônsules eram uma útil instituição, porque podiam assinar tudo quanto os cônsules-gerais. No caso de Juca Paranhos, foi indubitavelmente útil para o futuro das fronteiras do Brasil, pois ensejou proveitosas pesquisas em arquivos europeus. Ele não conseguiu, porém, consumar seu novo sonho de amor, casar-se com Maria Bernardina, pois o carinho que sentia por seus filhos o impediu de separar-se definitivamente de Marie Philomène, com quem afinal se casou em 1898.

Por curiosa ironia do destino, sua segunda paixão amorosa, a bela Maria Bernardina, sobrinha de Caxias, acabou casando-se com Salvador Moniz de Aragão. O filho do casal, José Joaquim Moniz de Aragão, foi o secretário particular do Barão do Rio Branco, quando ministro das Relações Exteriores. No cortejo do enterro do grande chanceler, o rapaz teve o privilégio de levar em suas mãos a almofada com as condecorações do chefe. Moniz de Aragão terminou a carreira como embaixador do Brasil em Londres, no final da década de 1940, onde ainda tive oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, embora sem saber dos pormenores sentimentais. No belo livro de João Hermes e Rubens Ricupero, o leitor poderá ver boas fotografias do jovem Rio Branco, de Marie Philomène, de Maria Bernardina e de seu filho, José Joaquim, secretário dileto do chanceler."
A mocidade do Barão do Rio Branco e sua tormentosa nomeação para a carreira diplomática, por Vasco Mariz. Páginas 27-28

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"Em princípios de 1872, Paranhos ligou-se afetivamente a uma jovem atriz de origem belga, Marie Philomène Stevens, que desde os fins de 1870 atuava no café-concerto mais prestigiado do Rio de Janeiro, o Alcazar. Paranhos pai, contrariado com a ligação do filho, inaceitável para os padrões da época, tentou dissuadi-lo de prosseguir no romance. Acredita-se ter sido determinante para criar os incentivos positivos e negativos para que a senhorita Stevens deixasse o Brasil e se instalasse em Paris. Era tarde, porém. Partiu grávida do filho de Paranhos Junior, Raul, que veio ao mundo em fevereiro de 1873, em Paris.

Fiel aos seus sentimentos e à sua responsabilidade, trouxe a companheira e o filho recém-nascido de volta, instalando-os em discreta casa no Rio de Janeiro, para constrangimento do pai, àquela altura o todo-poderoso presidente do Conselho de Ministros, posição que ocupou até junho de 1875. Paranhos Junior decidiu, então, afastar-se. Seria fiel ao seu caráter. Não abandonaria a mãe de seu filho. Pleiteou um posto no exterior. As duas vagas possíveis àquela altura eram a de secretário de legação em Bruxelas e a de cônsul-geral em Liverpool.

Fixou-se no consulado, que tinha a vantagem de propiciar uma boa remuneração, derivada – como era a praxe na época – das receitas havidas pelo posto com a legalização das cargas embarcadas de e para o Brasil. Tinha igualmente a vantagem de não exigir representação: o lado social, a diplomacia de salão a que não estava e não esteve jamais afeito. Era suficientemente distante de Paris, onde instalaria a família, para não criar embaraços nem ao governo local nem à corte no Rio de Janeiro. As convenções da época impediam que um diplomata vivesse maritalmente em um posto com uma senhora com a qual não fosse legitimamente casado.

O imperador, desgostado com a situação criada por Paranhos Junior, recusou-se a nomeá-lo. Com a partida do imperador para a Europa, a decisão foi parar nas mãos da princesa Isabel. A regente acabou assinando a nomeação em fins de maio. Marie partiu imediatamente com os filhos e se instalou em Paris. Paranhos Junior demorou-se até o fim de setembro".
Página 34.

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"Rio Branco também se transformava. Passado o tempo devido, decidiu casar-se com Marie Philomène. A cerimônia foi realizada em Londres. Longe, portanto, de Paris e dos brasileiros que por lá circulavam. A ligação de facto que o levou ao “exílio” em Liverpool e a Paris tornou-se de jure."
O Barão do Rio Branco chefe de missão: Liverpool, Washington, Berna e Berlim, por Luiz Felipe de Seixas Corrêa. Página 39.

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"A Questão do Pirara com a Inglaterra foi finalmente ao arbitramento por acordo de 1899, e Rio Branco indicou Joaquim Nabuco para a defesa dos direitos do Brasil, municiando-o com todos os estudos que fizera. Fixou-se na questão da Guiana Francesa. Deixou formalmente o consulado em Liverpool em 1896. Foi encarregado preliminarmente de assessorar o ministro Gabriel de Piza em entendimentos diretos com o governo francês. A tentativa de negociação bilateral fracassou entre bravatas do ministro Piza e ameaças arrogantes da parte francesa, inclusive de ação militar. Em abril de 1897, decidiu-se submeter o caso ao arbitramento do presidente da Confederação Helvética. Rio Branco foi nomeado enviado extraordinário e ministro plenipotenciário em missão especial em novembro de 1898, dois meses antes da morte, em Paris, de sua mulher Marie Philomène, após prolongada enfermidade."
O Barão do Rio Branco chefe de missão: Liverpool, Washington, Berna e Berlim, por Luiz Felipe de Seixas Corrêa. Página 46.

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"No entanto, a despeito de sua posição social no centro do poder Saquarema, a experiência de relativa marginalização comum aos membros da Geração de 1870 alcançou Paranhos Júnior por uma via curiosa: o moralismo da Corte carioca. A boemia e as aventuras amorosas de Juca o levaram a conhecer, em 1872, Marie Philomène Stevens, uma jovem corista belga que trabalhava nos cafés-concertos da noite boêmia da capital brasileira.

A relação de Paranhos Júnior com a belga certamente não agradou ao poderoso visconde, que fez com que a artista voltasse à Europa. No entanto, em 20 de fevereiro de 1873, nasceu, em Paris, Raul, o primogênito da relação amorosa de Paranhos Júnior com Marie Stevens. Marie voltou ao Rio de Janeiro com seu filho Raul, e os dois foram instalados por Juca Paranhos em uma casa na praia do Cajueiro. A relação foi mantida, mas sem que se oficializasse pelo casamento. O matrimônio com uma corista dos cabarés cariocas seria certamente chocante para os padrões da época. Talvez igualmente escandalosa era a situação de concubinato fora do casamento que Paranhos Júnior passou a manter.

O desconforto não diminuiu com o nascimento do segundo filho de Juca e Marie, em maio de 1875 (agora, uma menina, Marie Clotilde). Se a vida familiar dos Paranhos tinha problemas, a sorte política do patriarca também sofria seus reveses. No mundo político, a questão religiosa e a falência de Mauá precipitaram a queda do gabinete em seguida ao nascimento de Marie Clotilde. Para benefício de Juca, a chefia do governo foi assumida por outro conservador e amigo dos Paranhos, Luís Alves de Lima e Silva, o duque de Caxias.

A carreira política do visconde terminava (ainda que seu prestígio se mantivesse até sua morte) e a do filho não parecia ter grandes perspectivas, em vista da situação de sua vida privada e da pouca vocação demonstrada para a atividade parlamentar. A saída encontrada foi buscar um emprego na diplomacia. O alvo ambicionado foi o consulado em Liverpool, que estava vago em razão da morte recente do antigo titular. Ainda que com o empenho do pai e também do novo presidente do Conselho de Ministros, duque de Caxias, a nomeação de Paranhos Júnior foi difícil, pois o imperador,
cioso dos padrões morais da Corte, resistiu.

O impasse durou quase um  ano, tempo em que Marie engravidou pela terceira vez. A nomeação só foi arrancada durante uma ausência de dom Pedro II, quando a regente Isabel foi confrontada pela ameaça de Caxias de demitir-se da chefia do gabinete se não lhe fosse concedida a nomeação do filho do visconde. (...)

No ocaso do Império, Rio Branco vivia, por fim, a expectativa de sair da marginalização que a relação com a mãe de seus filhos o havia colocado. Talvez por isso mesmo, em setembro de 1889, pouco mais de 16 anos depois do nascimento de Raul, o primogênito, e então já mãe de cinco filhos, Marie Philomène Stevens tornou-se a baronesa de Rio Branco, casando-se, finalmente, com Paranhos Júnior em uma cerimônia íntima realizada em Londres."
O Barão do Rio Branco e a Geração de 1870, por Luís Cláudio Villafañe G. Santos. Páginas 301-302.

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"Infrator ou não dos bons costumes, o que fica é que José Maria enfrentou sem hesitação o escândalo quando soube que ia ser pai – à tout risque, ele trouxe Marie Philomène de volta da França, para onde ela fora recambiada por pressão do visconde, ao que tudo indica. Aliás, essa nódoa na biografia do grande homem público do Império não causou espécie aos biógrafos, aparentemente como resquício de uma visão machista, que não foi a de Juca.(...)

Há algo mais: o “romance” com Marie Philomène só confirma que Rio Branco não se sentia confortável no seu meio e no seu tempo. Ao desafiar a sociedade, Juca Paranhos estava desafiando o pai, indiretamente é claro, porque seu amor filial não lhe permitiria ir além disso. Não deixa de ser intrigante, aliás, o fato de que Juca não foi o único rebento do casal Silva Paranhos a manifestar um comportamento rebelde em algum momento. Seja como for, no caso do “frio e descrente” Paranhos Jr., o que se evidencia não é permissividade, mas autenticidade. José Maria mostrou que não se intimidava com eventuais sanções, a ponto de pôr em risco seu futuro profissional, ainda incerto naquele momento de vida."
Repensando o Barão do Rio Branco: retrato inacabado, por Fernando Guimarães Reis. Páginas 691-692.



2 comentários:

  1. Gostei muito de saber um pouco mais sobre Marie Philomène Stevens, o amor de Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco, que teve uma vida de muito trabalho, mas sofreu e viveu intensamente seus sabores e dissabores.

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  2. Gostei muito deste espaço, sempre que puder, farei uma visita.

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