22/04/2015

Somos apenas "esposas de diplomata"?

Foto: Hello Beautiful

Nesta noite de terça-feira, feriado de Tiradentes e aniversário de Brasília, recebi uma mensagem em um grupo fechado que me fez pensar a respeito de um assunto que ao menos para mim não causa nenhuma polêmica ou estranheza, mas que para outras pessoas pode parecer machista e pejorativo: a (auto)denominação "esposa de diplomata". 

É verdade que não ouvimos locuções como "esposa de piloto da fórmula 1", ou esposa de apresentador de televisão", até mesmo "esposa de executivo" ou "esposa de funcionário público federal". Mas ouvimos "esposa do Presidente", também conhecida como Primeira Dama, e "esposa do Embaixador", nomeada Embaixatriz. Será esse um título secundário? Algo que diminui a mulher a uma função decorativa ou de mera acompanhante? Depende do interlocutor e depende de que mulher estamos falando. Quando dei início ao blog, minha ideia inicial era contar as histórias e peripécias de uma esposa de diplomata: viagens, mudanças, criar filhos no exterior, recepções e festas. Mas com o tempo, fui conhecendo mulheres incríveis, empoderadas, decididas e autônomas - e todas elas também eram esposas de diplomata ou, como eu gosto de apelidar, diplo wives - e decidi falar sobre uma gama muito maior de assuntos, todos relativos à vida na chancelaria. Algumas dessas maravilhosas mulheres trabalham fora, outras trabalham em casa. Mas todas trabalham. E isso não me causa nenhuma estranheza: a mulher pode optar livremente por se dedicar à sua carreira, aos seus filhos, ao seu marido ou a todos eles ao mesmo tempo. Uma opção não exclui a outra. E optar uma vez não impossibilita uma mudança futura. O importante é que com a emancipação feminina hoje podemos ser o que quisermos - repito: o que quisermos. E ponto final. Isso é o feminismo. 

Mas vamos voltar ao "titulo" esposa de diplomata. Se fosse o contrário: a diplomata fosse mulher, não chamaríamos o marido de esposo de diplomata? Tenho certeza que sim. Da mesma forma, fazemos com os/as militares. Mas por que uma denominação de esposo/esposa de alguém? Quem deu início a esse suposto título secundário? As duas carreiras (militar e diplomática) vem com um grande fardo: a constante mudança de endereço. Ela afeta não somente o titular do cargo público, mas seu cônjuge e filhos. São eles que acompanham o esposo /a esposa, o pai /a mãe em uma vida nômade e cheia de compromissos e regras sociais. Por isso também usamos o termo "filha/o de militar" e "filho/a de diplomata". O cargo acaba englobando toda a família, que apoia esse servidor público na sua missão, seja ela de defesa ou de representação do Brasil. 

Cabe ao cônjuge do militar e do diplomata um papel importante da sua socialização. Tanto, que existem obrigações e regras sobre como proceder em eventos oficiais, nos quais a família deve comparecer. Além do papel cívico, as esposas/os esposos têm o papel de apoio na carreira e apoio em casa, duas coisas que não são nada fáceis. O que não significa necessariamente que são donos ou donas de casa unicamente. Muitos e muitas trabalham fora, tanto, que existem acordos bilaterais para viabilizar o trabalho dos cônjuges (leia aqui). Outros/as optam por se dedicarem exclusivamente à família, um trabalho que também é importante, haja vista os problemas que a expatriação gera - e que não são poucos. 

Mas podem perguntar: e o esposo da Presidente? e o esposo da Embaixadora? Como vamos chamá-los? Não há denominação para eles? Isso não é machismo? Bem, sabemos que um idioma é o reflexo de uma sociedade. No Brasil nunca tivemos um esposo de Presidente, talvez por isso não haja uma denominação para o "cargo". Mas estou segura de que no momento em que houver, a ABL e os estudiosos das letras nos brindarão com um termo adequado que passará a ser usado dai em diante.

Já o esposo da embaixadora, essa é uma outra questão. Até o ano de 1918 não havia ingressado nenhuma mulher no Itamaraty, e somente em 1938 as carreiras diplomáticas e consulares foram unidas, de forma que as primeiras mulheres, que entraram em 1919 passaram a ser diplomatas. Mas "apenas em 1953 uma mulher foi novamente aprovada, por força de um mandado de segurança. Em 1954, a autorização definitiva para o ingresso de mulheres foi dada."(Leia mais aqui). Ou seja, as primeiras embaixadoras devem ter assumido somente após 1974 (preciso verificar a data precisa, essa é uma estimativa bem grosseira). Assim sendo, são no máximo 40 anos de Embaixadoras no Ministério. Já deveria há muito haver um nome para os seus esposos, mas na falta de um termo específico, os chamamos "esposo da Embaixadora". Alguém acha esse termo sexista? Duvido. 

Se não somos "apenas esposas de diplomata", quem somos? Somos mulheres inteligentes, cultas, decididas e empoderadas. Somos tudo o que quisermos ser, sem limites, clichês ou preconceitos. Cada uma é única e ao mesmo tempo é múltipla, pois temos vários papéis: mulheres, filhas, mães, esposas, profissionais, ... diplo wifes.

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