22/05/2015

Brasília: posto sacrifício? - Parte II

Neste segundo post da série Brasília: Posto Sacrifício?, entrevistamos o Marcelo, autor do blog Tu Bem Que Podia Me Ler. Ele nos trás uma visão de quem veio morar na capital federal. 

Meu nome é Marcelo e me mudei para Brasília em 2010. Antes de dizer o que foi Brasília para mim, tenho que falar um pouco dos meus anos no Rio, cidade onde nasci e cresci.


No Rio, eu era funcionário público e morava com os meus pais, embora ficasse mais na casa da Luiza – minha então namorada e atual esposa – do que na minha. Sempre quis, porém, morar sozinho. Sozinho mesmo: sem filhos, gatos, cachorros, esposa, pais, ninguém. Como nem tudo na vida sai conforme planejado, acabei por admitir a presença da esposa e, mais tarde, de uma gatinha, nessa minha almejada solidão. A ideia, entretanto, era apenas juntar os trapinhos. Me casei, no papel, só para vir para Brasília. Nada romântico. Quando Luiza foi aprovada no concurso do Rio Branco, houve um emocionante diálogo, algo como:

            – Vamos ter que nos casar, né?
            – É. Que bosta!
            – Pois é, que saco.
            – Paciência. Vamos logo com isso.

Uma vez passado esse terrível dia em que tivemos que ser o centro das atenções e dizer dois constrangidos “sins” perante todo mundo, fiz valer o sacrifício e dei entrada no meu pedido de redistribuição no trabalho. Uma vez casados, se negassem minha solicitação, eu poderia entrar na justiça ou pedir licença para acompanhar cônjuge (tínhamos vários planos alternativos). Felizmente, não foi necessário. Consegui ser redistribuído para a UnB. O chato foi que a Luiza veio antes para Brasília: um período bem incômodo em que ela morou na atual capital do país, e eu, na antiga.

Assim sendo, quando tudo deu certo e eu pude vir para Brasília, evidentemente já estava feliz o suficiente com a nova casa. Se antes eu tinha uma imagem pouco positiva do DF, acabei, depois, gostando da cidade, mesmo com toda a propaganda negativa que ouvi sobre Brasília (é impressionante como carioca gosta de falar mal do nosso quadrilátero). Assim sendo, fiquei maravilhado com o clima de Brasília (a ponto de sentir até um gosto sádico ao saber que, enquanto no Rio fazia 45 graus, eu estava confortável, de calça e blusa), com o céu (as nuvens que eu nunca conseguia ver no Rio), com a segurança (que depois descobri não ser tão grande assim, mas pelo menos o Plano Piloto é bem menos violento que o Rio), com a arquitetura etc.

  Como nem tudo são maravilhas, teve um ponto que, mesmo diante desse meu encantamento, me incomodou e ainda hoje me incomoda: o transporte público do DF. Eu nunca gostei de carro. Dirigir é tempo perdido. No ônibus ou no metrô, a gente lê, dorme, faz o que quiser. No carro, a gente dirige e perde a vida. Só. Mas, em Brasília, carro é necessidade. No Rio, eu nem sequer tinha carteira de motorista. Foi em Brasília que eu aprendi a dirigir. Comprei um carro de Celina e Cassiano, então removidos para o Gabão, e me juntei a essa terrível massa amorfa no trânsito: uma ou duas pessoas – raramente três ou mais – em cada carro se perguntando o porquê do congestionamento e reclamando que não têm onde estacionar. Resisti, é verdade: passei um ano pegando ônibus, mas acabei por me render a essa máquina despedaçadora de almas chamada automóvel.

Em Brasília, fiz mais amigos do que esperava, conheci melhores restaurantes do que esperava, tive um trabalho mais divertido do que esperava. Se eu fosse mais chato, poderia dizer que gostaria de mais cinemas alternativos, tipo aqueles de Botafogo (aqui, o único mais ou menos é o do Liberty Mall) ou isso ou aquilo. Mas, como não tenho vocação para Alexandre Garcia, digo que Brasília é ótima para mim. Muito melhor do que o Rio. Posto sacrifício: de forma nenhuma. Saber que em pouco mais de um mês me mudarei para o Japão me deixa nostálgico quanto à cidade, querendo ir ao CCBB ou fazer alguma coisa para aproveitar esses últimos dias (ainda que apenas olhar o céu do Cerrado da varanda da minha casa). Consola-me saber que, um dia, eu voltarei. Já, para o Rio, nem depois de aposentado. Rio é só para visitar família e amigos – e olhe lá! Repito que Brasília não é posto sacrifício. Nesse país, lugar melhor não há.

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