17/05/2015

Clarice Lispector: uma diplowife - Parte II

Na primeira parte deste descobrir da vida de Clarice Lispector como Diplowife, falamos superficialmente sobre o casamento e a vida dela e de Maury. Neste segundo post, escrito com trechos de um livro recomendado pela Celina (obrigada!), conheceremos um pouco mais sobre a vida dela como esposa de diplomata. O livro se chama "Clarice," e é de autoria de Benjamin Moser. Não coloquei aqui o número das páginas dos excertos, pois estou lendo no Kindle Online. 

Antes de começar, gostaria de recomendar a (re)leitura dos posts sobre as dificuldades das esposas de diplomata quando se mudam para um novo posto: a face pouco conhecida da vida diplomática - Parte III e  a face pouco conhecida da vida diplomática - Parte II .Lispector não foi exceção à regra.



Por enquanto, vamos tratar somente do seu primeiro posto: Belém do Pará. 


"Menos de um mês depois da publicação de Perto do coração selvagem ela deixou o Rio de Janeiro. Por quase duas décadas, ela não retornaria para passar uma longa temporada. (...) Era um destino incomum para um diplomata, mas Maury fora enviado para lá porque a sonolenta Belém, como boa parte do Norte do Brasil, tinha subitamente se tornado um palco essencial na guerra que estava convulsionando o mundo. (...) 

Clarice e Maury Gurgel Valente chegaram a Belém do Pará em 20 de janeiro de 1944.(...) 

Foi uma época feliz para Clarice e Maury. Nomeado pelo ministro das Relações Exteriores, Maury era encarregado de recepcionar as muitas autoridades estrangeiras que passavam por lá a caminho da Europa, da África e da Ásia. Em janeiro de 1944, o "trampolim da vitória" já não era tão essencial quanto tinha sido antes de os Aliados retornarem a África do Norte, mas ainda era importante o suficiente para hospedar uma visitante do calibre de Eleanor Roosevelt, a primeira-dama americana, que fez uma aparição em 14 de março. Clarice estava por ali para lhe dar as boas-vindas. (...) Clarice ficou bêbada pela primeira vez, na casa do cônsul dos Estados Unidos. 

(...) Apesar desses lampejos de excitação, pela primeira vez na vida ela pouco tinha a fazer. Já não estava na escola e não tinha um trabalho. "Estou aqui meio perdida", ela escreveu a Lúcio Cardoso algumas semanas depois de chegar. Faço quase nada. Comecei a procurar trabalho e começo de novo a me torturar, até que resolvo não fazer programas; então a liberdade resulta em nada e eu faço de novo programas e me revolto contra eles. Tenho lido o que me cai nas mãos. Caiu-me plenamente nas mãos Madame Bovary, que reli. Aproveitei a cena da morte para chorar todas as dores que eu tive e as que eu não tive. - Eu nunca tive propriamente o que se chama "ambiente" mas sempre tive alguns amigos.

A liberdade inabitual fazia parte do destino de muitas esposas de diplomatas, cujas fileiras Clarice agora adentrara. O Ministério Exterior já era o clube mais esnobe do Brasil. Num país em que as relações pessoais importam muito mais do que o talento, a reputação de estrita meritocracia associada ao Itamaraty atraía muitas das melhores cabeças do Brasil. E o talento de seus diplomatas em garantir a segurança da nação sem recorrer à guerra lhes dava uma aura de competência quase mítica, num país que de modo geral tinha pouca confiança em seus governantes. 

Desnecessário dizer que o serviço diplomático tendia a ser ocupado por gente com origens mais parecidas com as de Maury do que com as de Clarice. As esposas de diplomatas eram em sua maioria mulheres bonitas, bem-criadas, das classes altas, cuja função, num mundo de embaixadas e funcionários era principalmente decorativa. Poucas mulheres tinham a educação superior de Clarice, e menos ainda suas origens humildes. Não havia judeus no serviço diplomático - quando Clarice se casou com Maury, havia apenas uma outra esposa judia no Itamaraty (...) o serviço diplomático era meritocrático, mas para critérios de admissão, um excelente grau de instrução que incluía domínio de francês e inglês, garantiam que ele fosse maciçamente ocupado pelas famílias da velha elite que, como em toda parte, tendiam a ser conservadoras, religiosas e nacionalistas. (...)

Clarice era agora uma esposa do serviço diplomático, mas por enquanto, embora longe de casa, ainda não estava no exterior, no casulo da diplomacia. (...) "

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