03/05/2015

Diplomatas famosos: Guimarães Rosa

Em Abril, falamos de Aracy Moebius de Carvalho; hoje, falaremos sobre seu marido. Poucos sabem, mas boa parcela dos membros da chancelaria se dedica a outro ofícios ou hobbies, ligados à poesia, prosa, fotografia, arte e música. Nesta série de biografias, estou apresentando diplomatas brasileiros que ficaram famosos por sua arte. O primeiro foi Vinicius de Moraes. O segundo será Guimarães Rosa que, além de romancista, salvou dezenas de vidas durante a II Guerra Mundial.


Inicialmente, gostaria de recomendar a leitura da íntegra da obra "Guimarães Rosa: Diplomata", de Heloísa Vilhena Araújo, clicando AQUI. Os textos que se seguem são transcrições do Wikipedia (eu sei que essa não é uma boa referência para nada neste mundo, mas o trecho me pareceu legal):


"[Guimarães Rosa] Foi o primeiro dos seis filhos de Florduardo Pinto Rosa e de Francisca Guimarães Rosa. Começou ainda criança a estudar diversos idiomas, iniciando pelo francês quando ainda não tinha 7 anos, como se pode verificar neste trecho de entrevista concedido a uma prima, anos mais tarde:
“Eu falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.”
Ainda pequeno, mudou-se para a casa dos avós, em Belo Horizonte, onde concluiu o curso primário. Iniciou o curso secundário no Colégio Santo Antônio, em São João del-Rei, mas logo retornou a Belo Horizonte, onde se formou. Em 1925 matriculou-se na então "Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais", com apenas 16 anos. Em 27 de junho de 1930 casou-se com Lígia Cabral Pena, de apenas 16 anos, com quem teve duas filhas: Vilma e Agnes. Ainda nesse ano se formou e passou a exercer a profissão em Itaguara, então município de Itaúna (MG), onde permaneceu cerca de dois anos. Foi nessa localidade que passou a ter contato com os elementos do sertão que serviram de referência e inspiração a sua obra .

De volta de Itaguara, Guimarães Rosa serviu como médico voluntário da Força Pública (atual Polícia Militar), durante a Revolução Constitucionalista de 1932, indo para o setor do Túnel em Passa-Quatro (MG) onde tomou contato com o futuro presidente Juscelino Kubitschek, naquela ocasião o médico-chefe do Hospital de Sangue. Posteriormente, entrou para o quadro da Força Pública, por concurso. Em 1933 foi para Barbacena na qualidade de Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria. Aprovado em concurso para o Itamaraty, passou alguns anos de sua vida como diplomata na Europa e na América Latina.".

Neste ponto, deixo a Wikipedia para a transcrição do texto de Luiz Felipe Corrêa, de excelente qualidade:

"João Guimarães Rosa foi nomeado cônsul de 3ª classe, denominação à época do cargo inicial da carreira diplomática, em julho de 1934. Simultaneamente ao diplomata Guimarães Rosa começava a surgir o escritor: em 1936, ganhou concurso da Academia Brasileira de Letras com seu livro de poesias Magma, que, curiosamente, apesar do prêmio de publicação, só viria a ser editado postumamente. Antes de sair do Brasil, ainda inscreveu em outro concurso literário um volumoso livro de contos. A banca o rejeitou: um ilustre membro da banca – Graciliano Ramos – o considerou desigual, mas já identificava na temática e na linguagem um autor de origem sertaneja. Infelizmente, não da forma mais abonadora: o livro era “montanhoso, subia muito e descia – e os pontos elevados eram magníficos, mas os vales me desapontavam”.

No final de 1937, foi promovido a cônsul de 2ª classe, tendo sido, no ano seguinte, removido para o Consulado em Hamburgo. A permanência na Alemanha estendeu-se por quatro anos. Até maio de 1942, o cônsul-adjunto do Brasil assistiria a um período de crescente turbulência: a cidade foi bombardeada, o próprio Consulado foi bombardeado, os pedidos de visto de entrada para o Brasil acumulavam-se. Na época, Guimarães Rosa manteve um diário, em cujos registros se misturavam
relatos da rotina no Consulado e observações horrorizadas do desenvolvimento da guerra, ao lado de suas experiências com a cultura alemã e do trabalho de revisão do livro de contos rejeitado no concurso literário.

A vida na Alemanha representou um dos períodos mais marcantes da carreira diplomática de Guimarães Rosa. No Consulado, Rosa conheceu a funcionária Aracy Moebius de Carvalho, que viria, mais tarde, a tornar-se sua segunda esposa. Ambos tiveram, juntos, atuação corajosa na concessão de vistos de entrada para o Brasil para judeus que tentavam fugir da Alemanha. Com a ruptura das relações diplomáticas entre o Brasil e os países do Eixo, Guimarães Rosa foi internado num hotel em Baden-Baden, de onde saiu, juntamente com outros diplomatas sul-americanos, depois de
quatro meses de negociações, em troca de diplomatas alemães.


Foto Acervo Família Tess. João Guimarães Rosa e Aracy Moebius de Carvalho em Hamburgo
Após breve intervalo no Rio de Janeiro, Guimarães Rosa seguiu para sua missão seguinte como segundo secretário na Embaixada do Brasil em Bogotá. A passagem pela Colômbia se mostraria igualmente sacrificante, dessa vez, pelas conseqüências para sua saúde do “soroche, o mal das alturas, com incríveis dores de cabeça e náuseas”. O esforço do diplomata foi reconhecido: quando do retorno de Guimarães Rosa ao Brasil, o Embaixador em Bogotá lhe fez elogio destacando o “verdadeiro espírito de sacrifício, nunca deixou que o seu estado de saúde que tanto se ressentia da grande altura de Bogotá, prejudicasse a sua atividade nesta Embaixada. A assiduidade ao serviço constitui uma das qualidades do referido funcionário”.

De volta ao Rio de Janeiro, preparou a edição do seu primeiro livro: o pintor e amigo Cícero Dias, companheiro de Rosa em Baden-Baden, havia lido os originais do livro de contos e o incentivara a publicá-lo. Assim, em 1946, apareceu Sagarana, obra que o consagrou como escritor. (Graciliano Ramos, em duas crônicas, expressaria publicamente o seu remorso pela decisão de não ter atribuído o prêmio máximo ao gigantesco livro de contos). Ao mesmo tempo, Rosa voltava-se cada vez mais para o sertão: voltou a visitar sua terra natal e começou intensa correspondência com o pai, pedindo-lhe detalhes sobre a natureza e o modo de vida sertanejo. 

Suas observações  de viagem – tal como fizera nos tempos em que servira na Alemanha – foram minuciosamente documentadas em inúmeras cadernetas. O homem que havia visto o mundo procura o mundo na volta à sua terra.

No Brasil, Rosa assumiu a chefia de gabinete do então Ministro de Estado das Relações Exteriores,
João Neves da Fontoura, e o acompanhou como membro da delegação brasileira em diversas viagens ao exterior, como à Conferência de Paz, em Paris, em 1946, e à IX Conferência Panamericana, em Bogotá, em 1948. O escritor Antônio Callado, que também era membro da delegação, narra um episódio curioso ocorrido nessa ocasião: apesar de um sangrento levante ocorrido naqueles dias na capital colombiana, Rosa ter-se-ia refugiado na Embaixada brasileira e lá ficado. Questionado pelo amigo, que dizia que o levante “parecia a história de Augusto Matraga, de tanto que mataram gente” – referindo-se ao último conto de Sagarana –, Rosa limitou-se a dizer que passara aqueles dias lendo Proust, porque “não preciso ver coisa alguma, está tudo na minha cabeça... já fiz um livro, estou fazendo outros”.

Em 1948, foi removido para a Embaixada do Brasil em Paris. Essa estada na capital francesa, que terminaria em 1951 seria sua última missão permanente no exterior. Mesmo encantado com a vida na
França, expressou em diversas cartas e anotações em diários seus planos de viajar pelo sertão do Brasil. Já de volta ao Rio de Janeiro, trabalhou para conciliar a ascensão na carreira diplomática – por essa época, alcançou a promoção a ministro de segunda classe – e a retomada das viagens pelo interior do Brasil e das publicações, primeiro de crônicas e textos curtos em jornais e revistas.

As duas carreiras de Rosa seguiram sua trajetória destacada e atingiram dois pontos culminantes nos anos seguintes: em 1956, foi publicado o livro unanimemente aclamado como sua obra-prima, Grande Sertão: Veredas, junto com as novelas de Corpo de Baile. Promovido a Embaixador em 1958, Rosa seria nomeado, alguns anos depois, chefe do Serviço de Demarcação de Fronteiras
do Itamaraty.

Foto Acervo Família Tess. João Guimarães Rosa e Aracy no Consulado em Hamburgo
Ao ingressar no Serviço Exterior, em 1967, tive o privilégio de conhecer e lidar com Guimarães Rosa. Jovem Secretário, encarregado dos assuntos do Paraguai na Divisão da América Meridional, participei de muitas reuniões em que se discutiram dois episódios surgidos àquela época envolvendo os limites brasileiros, o do Pico da Neblina, na fronteira com a Venezuela, e o de Sete Quedas, com o Paraguai. Guimarães Rosa muito contribuiu para a pronta Guimarães Rosa, diplomata brasileiro e satisfatória solução daquelas questões.

Nunca me esquecerei de sua presença serena, sábia e judiciosa nas reuniões no velho Itamaraty do Rio de Janeiro. Aprendi muito com Rosa. Lembro-me sempre de uma frase muito citada por ele nos momentos em que a crise parecia avolumar-se: “na vida tudo termina bem; se as coisas não estão bem, é porque ainda não terminaram!”.

O reconhecimento pelo seu trabalho no Serviço de Demarcação de Fronteiras se daria dois anos depois de sua morte, com a atribuição do nome de Guimarães Rosa ao pico de 2150 metros próximo à Venezuela, ponto culminante da Cordilheira Curupira. O escritor continuou, ainda assim, e paralelamente, ativo até o fim da vida. São dessa fase seus últimos livros, Primeiras Estórias e Tutaméia. No mesmo ano de 1967 em que o conheci, Rosa tomou posse na Academia Brasileira de Letras, para a qual havia sido eleito por unanimidade quatro anos antes. O pressentimento ruim que o fizera, para estranhamento geral, adiar a posse repetidas vezes, acabou por confirmar-se: três dias depois, Guimarães Rosa morria subitamente no seu escritório no Rio de Janeiro. Ficou para o patrimônio da cultura brasileira o legado da sua obra, da sua visão do Brasil, das coisas e dos homens da terra brasileira, do universal-particular dos sertões brasílicos." Luiz Felipe de Seixas Corrêa


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