22/05/2015

Entrevista: Mães no Itamaraty - Parte VIII

Hoje estamos publicando o oitavo post da série Mães no Itamaraty
  • A primeira entrevista foi com Carolina, que está em Chicago e tem um filho de dois meses. 
  • A segunda, foi com Celina, que mora em Montreal e tem um filho de nove meses. 
  • A terceira, foi com Vânia, que mora em Lisboa e é mãe de quatro filhas, de 22 a 31 anos. 
  • A quarta, foi com Carolina, que mora em Washington e tem dois filhos, de 03 e 01 anos.
  • A quinta, foi comigo, que moro em Brasília e terei filhos, mas não sabemos quando.
  • A sexta e a sétima foram dados parciais das entrevistas que fizemos com diversas mães, com o apoio e parceria da AFSI. 

Se você é mãe e servidora do Itamaraty ou mãe e esposa de servidor do Itamaraty e deseja nos ajudar contando a sua história, me envie um e-mail por meio do formulário que fica do lado direito do blog para que possamos conversar. Todas serão muito bem vindas!

Vamos conhecer agora a história de mais uma mãe?

Gabriela, Mike e Arthur

Gabriela, 33 anos, psicóloga, casada com Michael, diplomata desde 2010. Vivemos em Brasília de 2010 a 2012, em Gaborone/Botsuana de 2012 a 2014 e em Montevidéu/Uruguai desde 2014. Somos pais do Arthur, 1 ano e 4 meses, nascido em Joanesburgo/África do Sul em Janeiro de 2014.



Estávamos no nosso primeiro ano em Gaborone, aproveitando bastante a região, os amigos e as atividades. O Mike estava trabalhando na Embaixada e eu fazendo a coleta de dados do meu doutorado que estava em andamento na Universidade de Brasília. Um dia, de “sopetão”, decidimos que deveríamos começar a “tentar” engravidar – minha idade foi o fator motivacional preponderante. Não me lembro de ter levado a sério esse acordo, creio que foi porque pensei que levaria pelo menos 1 ano para engravidar após começar a tentar. O fato é que em 3 meses eu me descobri grávida e estávamos com viagem marcada para Etiópia e Tanzânia na semana seguinte à confirmação pelo exame de sangue. 

Calçadão do centro de Gaborone
Quando conversávamos sobre o assunto, antes de engravidar, pensávamos em todos os impedimentos daquele momento: minha tese, o medo de passar por toda a gravidez e o parto em um local sem estrutura médica confiável, sem a família, sem médicos conhecidos, etc. A carreira diplomática ou o fato de estarmos no exterior em si não foi um obstáculo, mas estar na África causava alguma insegurança e, mais do que isso, em Botsuana, onde as coisas não pareciam fluir bem em muitos setores.

Muito bem, viajamos para a Etiópia e Tanzânia com 3 semanas de gravidez, enjoos leves, um pouco de dor de cabeça  e muito, muito receio de precisar de atendimento de emergência nesses lugares. Graças a Deus foi tudo bem, nenhum incidente traumático, viagem perfeita. 

Ao retornar do passeio começamos a sondar com os amigos possíveis médicos para o pré-natal. Nesse processo tivemos alguns incidentes engraçados, mas preocupantes e que revelaram muito sobre o local e sobre nós mesmos. Eu, que antes me achava frágil emocionalmente e insegura, me vi com uma fortaleza surpreendente para lidar com os contratempos pelos quais passamos. No final rimos de tudo e lembramos com carinho e orgulho.

Supermercado “Pick n Pay”
Nossos vizinhos eram muito chegados a nós e foi por eles que começamos a saga em busca de um médico. Ele diplomata, funcionário da Embaixada da Alemanha em Botsuana e ela professora. Nos apresentaram um grupo de amigos que conheceram através do grupo de mães que ela participou ao chegar em Gaborone, pois tinha 2 filhos pequenos. Através dos seus contatos chegamos a um casal de ginecologistas alemães com uma excelente estrutura na clínica e ótimo temperamento. Me apaixonei na primeira consulta apesar de algumas diferenças culturais como a frieza em abordar a possibilidade de aborto em caso de alguma doença genética ser detectada. Fora isso, eu via o Arthur todas as semanas, pois havia ultrassom no próprio consultório, e de uma qualidade que me deixou mal acostumada. 

Os três primeiros e cruciais meses de gravidez foram acompanhados por essa médica alemã, que sempre me atendeu com carinho e atenção. A questão é que em poucos dias eles foram “expelidos” de Botsuana com uma acusação de suposta negligência em um parto que ocasionou a morte da mãe. Histórias de terror nunca faltaram quando pedíamos indicação de médicos. Sempre havia algum erro clínico envolvendo o médico ou cesarianas com muita dor e erros de diagnósticos em recém nascidos. Também houve casos de ir a uma consulta e a médica mal falar inglês e se apresentar com um equipamento de ultrassom que mais parecia um computador “pense bem”. Com isso, optamos por buscar um médico em Joanesburgo, na África do Sul, onde tudo era mais tecnológico e confiável. Pedi indicação para a própria ginecologista que vinha me atendendo e ela o fez prontamente. 
Sandton Clinic em Joanesburgo, onde Arthur nasceu

Eu já tinha ouvido falar de um 
hospital renomado na cidade e por coincidência o médico recomendado trabalhava lá. Ele estava com a agenda cheia, mas a secretária me recomendou seu companheiro de trabalho. Foi assim mesmo, recomendação da recomendação. Gera um pouco de receio, não é? Marcamos a consulta e nos apaixonamos pelo médico. Consultório bonito, muitas pacientes na sala de espera, todas com excelentes comentários sobre ele. Definimos o médico baseado no que vimos e ouvimos na sala de espera e na primeira consulta, já que não tinha a intenção de testar vários para aí tomar uma decisão, não havia tempo nem energia. A cada 20 dias dirigíamos 5 horas de Gaborone para Joanesburgo e ficávamos sempre na mesma Guest House, perto do médico e do hospital. Até hoje os funcionários da Rivonia Guest House nos perguntam sobre o Arthur, eles acompanharam toda a gestação até depois do seu nascimento, quando também passou a se hospedar lá. É uma delicia lembrar de tudo isso. Dr. Van Tonder, o obstetra, falava africâner e tinha algum sotaque no inglês, mas nos entendíamos bem. Ele era um pouco mais frio do que minha médica no Brasil, mas me parecia ser tão competente e seguro do que falava e fazia que não me importei com isso. Em alguns momentos ele até tentava ser engraçado. 

Angelina e Arthur
Planejamos mudar por 1 mês (usando as férias do Mike) para um flat em Joanesburgo para aguardar o Arthur sem correr o risco de entrar em trabalho de parto em Gaborone. O fato de meus pais estarem no Brasil dificultou os planos, pois tivemos que pensar em duas logísticas: a vinda da minha mãe e a nossa ida em família para o flat na África do Sul. Ela pôde ficar conosco por quase dois meses, aproveitou minha barriga, participou do chá de fralda e curtiu o Arthur até completar 1 mês. Depois ficamos sós. Meu pai e a família do Mike realizariam uma peregrinação em série nos próximos meses para conhecer o pequeno. Foi bom, pois havia uma visita por mês e o tempo passou rápido. Lembro-me com muito carinho de todo o processo. Apesar de meu pai e os pais do Mike não estarem presentes no parto, foi emocionante ver a notícia correndo pelas redes sociais e whatsapp. O parto foi um sucesso, a recuperação também e o Arthur muito bem atendido. Digo que fiquei mal acostumada com a qualidade de tudo e quero voltar para lá para ter o próximo, não importa onde estivermos. No retorno a Gaborone recebi a indicação de uma pediatra Americana que foi tudo o que precisávamos: carinhosa, atenciosa e competente. Fomos abençoados, pois depender de recomendações poderia gerar falhas, mas não, foi tudo do bom e do melhor. 
Rua da Embaixada do Brasil em Botsuana
Nós planejamos ter outro filho, mas agora a prioridade é que o Arthur adquira alguma autonomia para facilitar a nossa vida. Quando penso em um novo processo de gravidez e parto no exterior sinto outra vez aquela ansiedade: será que vai ser tão fácil e bom como o primeiro? Será que vamos encontrar bons médicos?  Será que vai correr tudo bem? Acho que essa ansiedade sempre acompanhará a futura mamãe que navega por terras desconhecidas, pois nada lhe é familiar e necessita sempre adaptar-se. Eu creio, porém, que junto com esses temores virá um antídoto – a fé e a paciência para fazer uma coisa por vez. A princípio estamos nos preparando para criar nossos filhos em escolas internacionais, ensinando-lhes e estimulando que falem o espanhol e o inglês desde o princípio, e o português sempre em casa. Aqui no Uruguai estou trabalhando, por isso o Arthur  tem ido ao jardim de infância meio período. A partir dos 2 anos ele iniciará na escola bilíngue para, de certa maneira, facilitar a transição dele para nossos próximos postos. Isso rende outra história...

Arthur no primeiro dia de aula em Montevidéu

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