25/05/2015

O outro lado da moeda: a diplomacia e a numismática

O outro lado da moeda: a diplomacia e a numismática

Autor: Bruno Quadros e Quadros, diplomata e numismata. 
Artigo originalmente publicado na Revista JUCA nº 7.

Muito mais que um passatempo, a numismática é uma ciência com múltiplas implicações para a diplomacia. O conhecimento de cédulas e moedas pode auxiliar o diplomata no seu cotidiano e, frequentemente, servir como instrumento de política externa.


Imagem: numismaticasabrylambo.it/
A dimensão mais conhecida da numismática - o colecionismo de moedas e de cédulas - representa, para alguns, uma excentricidade aristocrática, enquanto, para outros, é uma atividade educacional e recreativa. No entanto, a numismática envolve diversos outros aspectos: serve como ciência auxiliar da História e reúne o conhecimento das tecnologias de fabricação de dinheiro e de prevenção de falsificações. Independentemente dessas diferentes perspectivas, o estudo das cédulas e das moedas permite perceber como a história de um país é tratada e que personagens e eventos são privilegiados em detrimento de outros. Por isso, é o campo singular para se observar a hierarquização da história e da iconografia nacionais pelo poder político em determinada época.

Que relação têm a diplomacia e uma singela moeda de cinquenta centavos? Como a numismática serve ao trabalho do diplomata? Quantas considerações diplomáticas estão envolvidas em um contrato de exportação de cédulas da Casa da Moeda? Nesse contexto, o artigo aborda a relação entre diplomacia e numismática na vertente iconográfica (os diplomatas no dinheiro brasileiro), profissional (a funcionalidade da numismática no trabalho diplomático) e comercial e de cooperação (a exportação de dinheiro pela Casa da Moeda).

1. A diplomacia em moedas e em cédulas brasileiras


A representação de diplomatas e de eventos diplomáticos é farta na numismática brasileira, a começar pelo Barão do Rio Branco. O Patrono da diplomacia brasileira é presença garantida em moedas e cédulas do país há cem anos e acompanha as diversas mudanças de moeda sofridas pelo Brasil durante o século XX.

A primeira aparição de José Maria Paranhos da Silva Júnior no anverso das cédulas brasileiras ocorreu em 1913, um ano após sua morte. Foi na 14a. estampa da nota de 5 mil réis, produzida pela American Bank Note Company, empresa sediada em Nova Iorque. O reverso da cédula faz referência à indústria e ao comércio do país.

Quando se percebeu que o "mito" do Barão seria duradouro, o diplomata passou a figurar na 19a. estampa das notas de 5 mil réis que foram impressas em 1924, 1936 e 1942, também pela American Bank Note Company. Exemplares dessa cédula em perfeito estado de conservação (denominado "flor de estampa" pelos numismatas) chegam a valer quase quinhentos reais no mercado.

Com a reforma monetária que introduziu o Cruzeiro, em 1942, a nota de 5 mil réis com o Barão foi carimbada para 5 cruzeiros, eliminando-se os três zeros. Também impressa nos Estados Unidos, a primeira estampa da cédula própria de 5 cruzeiros circulou entre 1944 e 1967. Enquanto Rio Branco permanecia no anverso, a nota trouxe como inovação o reverso, que passou a retratar o quadro "A Conquista do Amazonas", de Antônio da Silva Parreiras. A cédula circularia com a segunda estampa a partir de 1950, dessa vez impressa pela empresa britânica Thomas de La Rue & Company, com as mesmas ilustrações, mas com novo esquema de cores, mais próximo do marrom.

Na segunda família de cédulas do Cruzeiro, reintroduzido como moeda nacional em 1970, o Barão foi transferido para a nota de mil cruzeiros, que foi impressa pela Casa da Moeda do Brasil (CMB) e circulou entre 1978 e 1989. Tendo no reverso o tema da delimitação das fronteiras, com a reprodução do taqueômetro usado na Questão de Palmas , essa nota foi inspirada nas cartas de baralho, possibilitando a mesma leitura para onde se virar a nota. Foi a partir dela que entrou na linguagem popular a expressão "barão" para designar o número mil em valores monetários. No meio numismático, é conhecida como "cabeção", devido à protuberância da fronte do Barão.

Após quase uma década "fora de circulação", o Barão tornou a fazer parte do dinheiro brasileiro na segunda família de moedas do Plano Real, introduzida em 1998. Uma vez que as cédulas passaram a tematizar a fauna, as moedas trazem próceres brasileiros. Os homenageados incluem Álvares Cabral, Tiradentes, D. Pedro I, Deodoro da Fonseca e o Barão, que figura no anverso da moeda de 50 centavos, ladeado pelo mapa do Brasil, em alusão à sua contribuição para a consolidação das fronteiras. De 1998 a 2001, foi cunhada em cuproníquel. De 2002 até hoje, passou a ser de aço inoxidável. Foram produzidos mais de dois bilhões dessas moedas.

Além do Barão, Rui Barbosa é outro brasileiro homenageado em moedas por sua atuação diplomática. O jurista baiano figura na moeda de 20 centavos de cruzeiro, que foi cunhada entre 1948 e 1956. Rui e a II Conferência de Paz de Haia (1907) estão presentes nas cédulas brasileiras de 10 mil cruzeiros, que circulou entre 1984 e 1990, e na de dez cruzados, que circulou entre 1986-1990, ambas impressas pela CMB. No anverso, percebe-se Rui Barbosa à direita de sua mesa de trabalho; no reverso, o “Águia de Haia” aparece discursando no plenário da Conferência. 

Em 1992, foi lançada, no valor de 2 mil cruzeiros, a moeda comemorativa referente à Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD ou Eco-1992), realizada no Rio de Janeiro naquele ano. Cunhada em prata, tem um beija-flor retratado no reverso. Esse é mais um exemplo em que a Numismática acompanhou as transformações da política externa brasileira, justamente na Conferência que marcou a abertura e o fortalecimento do engajamento do Brasil no multilateralismo e na proteção do meio ambiente.

2. Diplomatas numismatas
Imagem: veronaeconomia.it


Além de retratar diplomatas, a numismática relaciona-se com o cotidiano desses profissionais. Mas em que medida a atividade numismática auxilia o trabalho do diplomata? De acordo com o Embaixador Paulo Cordeiro de Andrade Pinto, numismata com especial interesse em moedas coloniais portuguesas, ela proporciona o conhecimento, por um lado, da realidade e da história dos países e, por outro, da estética artística de determinada época. A compreensão da história de Porto Rico, por exemplo, pode ser percebida na relação dos locais com a moeda. O oficial de chancelaria Luís Augusto Galante, que é doutor em História e consultor numismático, observou a preservação da memória monetária espanhola em sua estada em San Juan, devido ao fato de os portorriquenhos se referirem ao dólar norte-americano como "peso" e à moeda de 25 centavos de dólar ("quarter") como "peseta". No que se refere à estética artística, as dobras e os dobrões cunhados durante o reinado de D. João V, na primeira metade do século XVIII, são exemplares formidáveis do estilo barroco que predominava em Portugal àquela época.

Segundo o Embaixador Paulo Cordeiro, o olhar numismático atento permite a compreensão dos códigos de cada sociedade, os quais frequentemente não são evidentes em fontes tradicionais de informação (discursos e imprensa). A política para as minorias da China, por exemplo, pode ser percebida pela presença das traduções em mongol, tibetano, uigur e zhuang em todas as notas de renminbi. Por meio dessas cédulas, o Governo chinês transmite a política oficial de respeito à diversidade étnica, linguística e religiosa existente no país.

Além disso, a numismática serve como mecanismo facilitador do diálogo. O Embaixador Cordeiro relata ocasião em que uma autoridade iraniana supunha que seu homólogo brasileiro pouco conhecia sobre o país persa e sua sociedade. Ao perceber o clima de suspeição, Cordeiro apresentou ao seu interlocutor um toman, moeda de ouro cunhada durante o reinado de Fath-Ali Shah, Xá da Dinastia Qajar que governou a Pérsia entre o final do século XVIII e meados do século XIX. O ato contribuiu para dissipar as eventuais desconfianças, e a autoridade iraniana embarcou em frutuoso diálogo.

A diplomacia também tem o papel de recuperar os tesouros nacionais numismáticos. Em 1986, quando trabalhava na Delegação do Brasil em Genebra, o Embaixador Cordeiro foi testemunha do trabalho do então Embaixador Paulo Nogueira Batista, que, instruído por despacho da Secretaria de Estado, atuou em leilão de moedas coloniais portuguesas organizado pela Sotheby’s. As instruções específicas do Itamaraty, a pedido do Banco Central do Brasil, referiam-se à aquisição de cinco moedas cunhadas na Bahia entre 1715 e 1816, as quais faltavam no acervo numismático do BACEN. O Banco de Portugal também estava na disputa, interessado nas mesmas moedas. No fim, foi possível arrematar duas peças: uma moeda de 6.400 réis, cunhada em ouro, em 1734, pelo valor de 130 mil francos suíços (mais de R$ 300 mil em valores atuais), a qual era a prioridade do Banco Central; e outra de 4 mil réis, cunhada em ouro, em 1816, pelo valor de 1.400 francos suíços.

Imagem: wikimedia

3. Exportação de dinheiro pela Casa da Moeda


A exportação de dinheiro é outra dimensão do vínculo entre diplomacia e numismática. Quando realizada em base comercial, essa exportação revela um forte laço de confiança dos países compradores com o país exportador. Já quando o dinheiro é fabricado sem ônus para países que têm dificuldades momentâneas em produzi-lo, torna-se importante instrumento de cooperação bilateral.
Criada em 1694, a Casa da Moeda do Brasil (CMB) tem um longo histórico de exportação de moedas e cédulas, que remonta ao período colonial, quando cunhou macutas para as colônias portuguesas na África, a partir de 1813. No século XX, a Casa da Moeda exportou notas para diversos países, como Bolívia, Venezuela, Peru, Costa Rica e Equador, e transformou-se em referência internacional na fabricação de dinheiro. Esse processo foi interrompido, contudo, no final da década de 1980, devido ao excesso de demanda por meio circulante no Brasil e à obsolescência tecnológica do equipamento da CMB àquela época.

Após receber importantes investimentos na modernização do maquinário e na ampliação da produção, a Casa da Moeda retornou, recentemente, ao mercado internacional. Nos últimos anos, a CMB fechou contratos de fornecimento com autoridades monetárias de países como Paraguai, Venezuela, Argentina e Haiti. Para o Paraguai, a Casa da Moeda imprimiu mais de 40 milhões de cédulas de 5 mil e de 10 mil guaranis.

Firmado em 2010, o contrato com a Argentina envolveu a impressão de 140 milhões de cédulas de 100 pesos, a fim de auxiliar no suprimento de papel-moeda para o mercado argentino. Aeronaves da Força Aérea Argentina foram enviadas ao Rio de Janeiro, em janeiro de 2011, para fazer o transporte das cédulas até o país vizinho.

No caso do Haiti, não se trata de contrato de venda, mas sim de doação, inserida na ajuda humanitária brasileira prestada ao país caribenho após o terremoto de 2010. A Lei 12.409 autorizou a CMB a doar 100 milhões de cédulas ao Haiti, o que representa um auxílio de quase R$ 5 milhões àquele país. O transporte do dinheiro também coube à CMB: em novembro de 2013, um navio fretado chegou a Porto Príncipe, com 47,4 milhões de cédulas de 20 gourdes, acondicionadas em um esquema especial de segurança. Essas notas já contam com os elementos de segurança presentes nas cédulas da segunda família do Real, como a banda holográfica.

Conclusão


Pensar a numismática como mero passatempo desvinculado da realidade é ignorar a riqueza das relações entre ela e a diplomacia. Os detalhes que constam nas moedas e nas cédulas são fruto de decisões políticas, pensadas com o objetivo de transmitir à população a narrativa histórica e/ou a percepção da realidade preferidas pelo poder político. Nesse sentido, a permanência quase ininterrupta do Barão no dinheiro brasileiro nos últimos cem anos demonstra o prestígio que ele e seu legado possuem na sociedade brasileira, principalmente devido à consolidação das fronteiras nacionais.

A numismática também é um valioso instrumento que auxilia o diplomata na compreensão de outras realidades e na facilitação do diálogo. Permite-lhe analisar a relação das sociedades estrangeiras com o seu passado, bem como as mensagens do poder político local em temas como desenvolvimento, meio ambiente e cultura. 

Por fim, a fabricação de dinheiro pode servir como mecanismo de política externa e de cooperação, cujo maior exemplo é a impressão gratuita da moeda haitiana, a fim de abastecer o mercado do país caribenho. Nesse sentido, a expertise numismática da Casa da Moeda é um dos recursos à disposição da diplomacia brasileira para aprofundar as relações com os demais países emergentes.

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