11/05/2015

Ser ou não ser? Eis a questão! Sobre maternidade e feminismo.

Spoil alert: post escrito em momento de profunda indignação.
Alerta do Ministério da Saúde: este post pode afetar seu humor.

"Feliz dia das mães para a futura mamãe! E aí, quando vocês terão filhos? Em breve? Já está na hora!". 

Um diálogo que para algumas pessoas pode ser simpático, para outras é ofensivo e machista. É sobre isso que escreverei hoje no blog, em plena segunda-feira pós-dia das mães. 


Tenho um ano e quatro meses de casada no religioso, um ano e sete meses de casada no civil e dois anos e seis meses de casada de fato. Coloquei essas três informações pois para algumas pessoas é a primeira que realmente conta; mas, para mim, a que conta mesmo é cinco anos e três meses de namoro, que completo hoje. Desde o primeiro dia de relacionamento com meu marido, tenho o mesmo carinho e compromisso que tenho hoje. Não foi o casamento ou a formalização civil, social e religiosa dele que mudou alguma coisa. Uma prova disso é que comecei este blog muito antes de ficarmos noivos e até mesmo antes de o meu marido se tornar diplomata. Não acredita? Veja o meus primeiros posts AQUI

Ok. Mas o que isso teria a ver com o assunto do post? Muito. A partir do dia 25 de janeiro de 2014 (nosso casamento religioso) muitas pessoas começaram a me indagar quando teríamos filhos e outras começaram a me pressionar para termos filhos logo. Sim, "me" no singular. Primeira pessoa do singular. Ainda me espanta como alguns em pleno século XXI sigam pensando que uma mulher deve se casar e logo ter filhos. Sim, a mulher. Me explico: é muito comum ouvir "parabéns à futura mamãe" para mulheres casadas que não estão grávidas ainda, pois assume-se que em algum momento próximo elas terão filhos. Mas alguma vez na sua vida você ouviu "parabéns ao futuro papai" para homens cujas cônjuges não estejam sequer grávidas?. Mais um exercício de memória: vocês já viram pessoas perguntando a casais lésbicos se elas desejam ser mães logo, ou como farão para serem mães? Provavelmente. E viram pessoas perguntando a casais gays se eles querem ser pais e como farão para sê-lo? Humm, acho que não, não é?

Assumir a maternidade como pressuposto indissociável da vida de uma mulher é extremamente machista. As mulheres podem optar se, quando, como, com quem e quantos filhos terão. Escolha é feminismo. 


Mas por que estou escrevendo isso no dia seguinte ao dia das mães, logo após uma semana de posts sobre mães e maternidade? Muito simples: porque as pessoas que me conhecem - ou ao menos leem o blog - sabem que nunca (sublinhado mesmo) quis ter filhos, mas que após alguns anos de convívio com o Felipe, mudei de ideia (relembrem-se clicando aqui). Mudar de ideia não significa engravidar no dia seguinte. O que mais me espanta é que essas mesmas pessoas que me conhecem e que me parabenizam(!) pelo dia das mães sabem que sou feminista desde o útero - logo, me dou o direito de escolher que caminho seguir na vida -, que estou no último (e mais difícil, estressante e trabalhoso) ano do doutorado e que ainda não me estabeleci profissionalmente pois preferi me dedicar primeiro à vida acadêmica. Mas, aparentemente, nada disso importa: o que realmente é importante é ter filhos logo. Carreira? Vida pessoal? O importante é procriar! (notem o sarcasmo, por favor). Não estou exagerando. Vou transcrever um diálogo que tive e vocês perceberão o nonsense:

- Parabéns futura mamãe!
- Obrigada, mas não tenho filhos.
- Mas você logo será mãe.
- Não, não quero ter filhos tão cedo. Vai demorar um pouco, tenho outros objetivos por agora. Talvez eu possa nem ter filhos.
- Mas como assim? Uma árvore nasce para dar frutos. De que serve uma árvore sem frutos? Ela morre seca.
- (silêncio e pausa constrangedora)
- Toda mulher tem que ser mãe.
- (eu sorrio sem graça e vou embora)

Sou contra ser mãe? Absolutamente não. Tenho uma mãe fantástica, exemplo de dedicação e amor, e vejo amigas que são muito felizes com a maternidade. Algumas optam por ser mães em tempo integral e outras optam por compartilhar maternidade e carreira. O que me deixa profundamente chateada é a pressão social para termos filhos e agirmos de uma forma x ou y, geralmente condicionadas por um modelo patriarcal. Eu sei que é muito poliana, mas gostaria que esses modelos pré-estabelecidos de mulher já tivessem sido superados. Infelizmente, dentre outros fatores, famílias, religiões e mídia perpetuam estereótipos femininos de séculos passados e acabamos os reproduzindo sem pensar. Por que não posso ser uma acadêmica e depois ser mãe? Por que tenho que ser uma princesa e não apresentar opiniões fortes? Por que tenho que optar ser isso ou aquilo? Por que não posso ser tudo ao mesmo tempo?

Assistam a esse vídeo e reflitam um poco.





Então, está tudo ficando mais claro? Não estou de mi mi mi - ou de TPM, como algumas pessoas gostam de se referir a mulheres de opinião forte - o que me preocupa é que queiram decidir por mim, me moldar e me pressionar a viver de uma forma pela qual não optei. Querem entender exatamente o que penso? Abaixo temos uma palestra da Profa. Dra. Amber Kinse, da East Tennessee State University. Ela fala de forma clara, simples e eficiente sobre maternidade e feminismo. Nossas opiniões convergem e muito! 




Existe uma pressão sobre as mulheres que é tão grande, que não basta termos filhos. Isso não vai fazer com que as pessoas parem de te pressionar. Se você é mãe e trabalha em casa, cuidando dos filhos, é uma preguiçosa, aproveitadora, fica gastando o dinheiro do marido. Se você é mãe e trabalha fora, negligencia seus filhos, é egoísta, é uma mãe ruim. Se perdeu logo o peso da gravidez, não está se alimentando bem o bastante para amamentar. Se não perdeu, é desleixada. E não termina aí! Para escrever este post pensei muito. Li muito. Até de madrugada. Aí, acordei hoje cedo e li mais, pensei mais. Então, fazendo buscas em sites e blogs encontrei esse relato: sobre ser mãe e ser livre. Gostaria de transcrevê-lo para encerar esse meu post desabafo.

Fica aqui o meu grande carinho e respeito a todas as mulheres. Mães e não-mães - se é que essa separação deveria existir ou se eu sequer devesse mencioná-la neste post. 

 Sobre ser mãe e ser livre


"Porque sou mãe, controlam minha vida. Controlam minhas roupas, meus passos, minhas palavras. Porque sou mãe, controlam meus decotes e minhas saídas. Minhas atitudes e minhas escolhas. Porque sou mãe, porque sou mulher.  Uma mãe com sexualidade é uma mãe ruim. Mãe não pode mais ter desejo, não pode mais ter vaidade e deuzolivre de ter individualidade.

Mãe tem que abdicar de si e dos prazeres dessa vida para apenas exercer a sagrada função.  Mãe que não for casada na indiscutível monogamia tem que procurar um homem de bem, que seja um bom pai e um bom marido. Sexo casual? Jamais! Uma mãe deve se dar ao respeito, tem que dar exemplo. Relações livres? Não é uma opção. Gostar de outra mulher, então, inaceitável! A filha vai virar lésbica, o filho vai virar gay.

Mãe não pode pensar na carreira. Coitados dos filhos dessa aí, só pensa em trabalho. Quem vai criar? Como se os filhos brotassem sozinhos.

Mãe não pode ser a favor da legalização do aborto. Por que então teve filhos? Mata logo todos! Assassina! Só é a favor do aborto porque você e sua filha já nasceram. 

Mãe também não pode escolher ficar sozinha. Coitada, essa aí ninguém quer mais. Quem vai querer mulher usada, gasta, que já vem com problema? Filho de outro é problema, todo mundo sabe. 

Mãe, quando se sustenta, é porque só pensa em trabalho. Quando ganha pensão, é sem dúvida uma aproveitadora sem vergonha.

Mãe não pode ser livre. Vagabunda! Quantos homens já passaram por esse corpo? Uma vergonha! Desonra! Suja! E também não pode beber. Beber não é coisa de mulher direita.  E não pode dançar que nem puta. Não pode usar roupa curta, não pode cair na noite, não pode, não pode. 

Mãe não pode se apaixonar. E as crianças? Vai largar tudo? Que vergonha. Mãe tem que se dedicar, tem que esperar os filhos tomarem rumo. Mãe também não pode querer um tempo a sós. Tem que passar com os filhos, tem que passar todo o tempo com os filhos, todo o tempo livre de todo o resto da vida deles, até que eles não queiram mais. Um tempo sozinha? Desnaturada. Mãe de merda. 

E cadê o pai? Ah, casou de novo, sabe como é. Cadê o pai? Ah, mora em outro estado, sabe como é. E cadê o pai? Ah, ele visita a cada 15 dias. E cadê o pai? Não existe. E cadê o pai? Ah, ele até ajuda."Ajuda" porque a responsabilidade é da mãe. O fardo é da mãe. Na hora de fazer foi bom, né? Agora aguenta. Por que não se cuidou? Métodos anticoncepcionais não faltam por aí. E jamais falham, né? Se falhar, não dá nem pra pensar em tirar aquela vida. É uma vida! Uma vida não se tira assim, por egoísmo. Não tem idade? Não tem dinheiro? Não tem ninguém pra dividir a responsabilidade? Não tem vontade? Aguenta.

O pai ninguém julga pela roupa. O pai ninguém julga pela vida sexual. O pai ninguém julga se casa de novo, se sai com uma ou muitas, se bebe, se fuma, se trepa. Homem pode tudo. Ser pai é um detalhe que jamais os desumaniza. Quando o pai exerce sua função, é tratado como herói. Que homem! Vê os filhos, colabora em casa, educa. Que homem especial é aquele que faz o mínimo de sua obrigação. 

Porque sou mãe, porque sou mulher, sou julgada o tempo inteiro.

Porque sou mãe e porque sou mulher, vou peitar todo esse conservadorismo, esse machismo, essa palhaçada, e vocês vão ter que me engolir, porque a vida é minha, a filha é minha, eu crio como eu quiser, eu beijo quem eu quiser, eu faço o que eu quiser. Eu sou uma mulher livre e vocês vão ter que me suportar. Eu sou uma mãe livre."

por Clara Averbuck — publicado 22/10/2013 20h15, última modificação 22/10/2013 20h17


4 comentários:

  1. Sensacional, Elisa.
    Seu texto é extremamente lúcido e há de incomodar a Tradição-Família-Propriedade...
    O texto da Clara que você transcreveu também é excelente.
    Só lamento meu inglês não ser suficiente pra conseguir assistir à palestra...
    À medida que lia, um filme foi passando na minha cabeça.
    Eu também nunca pensei em ser mãe... Nào mudei de ideia, mas um dia aconteceu, solteira. Fiz então o meu melhor e sei que me tornei uma boa mãe.
    Trabalhei muito, fiz carreira. Minha filha sempre comigo, sempre juntas, apoio mútuo, amor incondicional... Lógico que minha família foi imprescindível: apoio permanente (embora esperassem que eu me casasse um dia...).
    Muitas pessoas cobravam o motivo de eu não me casar, afinal teria alguém pra "cuidar" de mim, pra me "ajudar" a criar minha filha, pra me fazer companhia na velhice...
    As pessoas em geral parecem não entender que casamento não é um emprego (eu lavo, passo, fico cheirosa e pronta pra o sexo e você cuida de mim!).
    Casamento é afinidade de almas, mente e corpo. Eu nunca encontrei meu afim. Nem por isso deixei de me tornar uma pessoa feliz, satisfeita comigo mesma.
    Note que sou uma pessoa extremamente caseira. Gosto de ler e de vez em quando fazer crochê e outras artes manuais.Então a cobrança era pra eu sair, me mostrar, ir à "luta" ir à luta (!!!!!), afinal eu estava esperando que um vendedor de enciclopédia batesse à minha porta e por mim se apaixonasse?
    Dizia à minha filha que ela tinha que cuidar da própria vida. Ela temia deixar-me "sozinha".
    Depois que crescemos, eu aposentada e ela formada, disse-lhe: Filha, liberte-me, pois eu já a libertei.
    E ela foi cuidar da própria vida com uma única recomendação minha: Seja feliz.
    As pessoas estranham eu estar feliz e bem sem ela. Causo estranheza. Não percebem que nós nunca nos separamos, nunca nos separaremos em coração e espírito. Só que ela é uma pessoa e eu sou outra,
    Mas sou uma mãe livre e criei uma filha livre.
    Grata pelo presente de dia das mães ;)

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    1. Cris, você é uma mulher sensacional e um exemplo de ser humano. Te admiro muito.

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  2. A lídia lacerda compartilhou um texto do seu blog, daí fui navegando e vi que te conhecia, bem... fizemos uma matéria no NPJ juntas. Devo dizer que adorei seu blog, seu casamento foi lindo e esse texto maravilhoso. Agora o comentário sobre o texto rs, propriamente: Embora eu quisesse ter filho(a), também me senti bastante pressionada, ainda mais pq tive dificuldades para engravidar. Agora, mãe de uma menina de 1 ano, me pedem um segundo filho. Além disso, sinto absolutamente tudo que foi descrito pelo texto compartilhado, perdi minha individualidade, mesmo que eu lute com todas as minhas armas para mantê-la. Ontem quando cheguei na casa da minha vó, com um short (nem tão) curto, ouvi de uma tia: "Menina, e essas coxas de fora?! Você agora é uma mãe de família!" Como Alice também estava com short idêntico eu só falei: eu sou a periguete maior e ela a menor. Ser mãe é um pedaço da minha vida, bastante significativa, mas não toda minha vida. E como é chata essa patrulha, e como é tensa essa batalha para ser livre. Beijo!

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    1. Oi Camila! Me lembro perfeitamente de você! Quanto tempo! Adorei a sua resposta. Eu também tento levar no bom humor, mas essa patrulha parece vir de todos os lados. Acho que podemos ser tudo o que quisermos, por que temos que deixar tudo de lado e sermos rotuladas ao sermos "mães"? Fico muito feliz de te reencontrar assim. Acabei de te adicionar ao meu Facebook. :) Beijo!

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