01/06/2015

A face pouco conhecida da vida diplomática - Parte VIII

Dando seguimento à série "A face pouco conhecida da vida diplomática", que já abordou as dificuldades de sair e de retornar ao país, o primeiro dia em um novo posto,  servir em países com instabilidade política e social,  o mito em torno da vida social do diplomata, hierarquia e a ordem de precedência,  e a "curva do expatriado",  agora vamos falar do papel das esposas dos embaixadores: as embaixatrizes. 

Gosto muito deste livro da Embaixatriz Yeda Assumpção, então decidi citar trechos das páginas 28, 29 e 66 que falam do importante papel protocolar das embaixatrizes. 


"É onde entra um dos papéis mais importantes da mulher do diplomata. Nós, as embaixatrizes, somos consideradas pela adequada elegância, pela correção dos jantares blacktie, das recepções, coquetéis e festas oficiais.

É quase inconcebível que não tenhamos disposição para sorrir, para esbanjar charme e, sobretudo, para nos mostrarmos sempre inteligentes.


O contrário, seria quase um prejuízo para a vida do marido. Porque para ele, o diplomata, a carreira vem em primeiro, em segundo e terceiro lugares em ordem de importância. 

Quando casei com Roberto, não tinha a menor noção do que era a carreira, nunca imaginei o que representava a vida diplomática. E só fui realmente compreender que ser embaixatriz era algo bem diferente de ser apenas a mulher de um diplomata quando chegamos à Argélia. Aquele era o primeiro posto de Roberto como embaixador e onde senti também a necessidade de assumir ao pé da letra as funções de embaixatriz, partindo da estaca zero. Aos poucos, porém, fui me apaixonando pelas novas responsabilidades. Queria ser realmente uma embaixatriz, no sentido que deve ser dado à palavra: aquela que participa da carreira.

A convivência em sociedade era apenas um dos aspectos - naturalmente o mais visível - da função. Mas tratava-se de muito mais: criar, na embaixada, as condições ideais para facilitar a essencial troca de informações e negociações. Afinal, esse cenário aparentemente mundano servia como cenário para que as relações se fortalecessem, as informações fossem trocadas, os acordos alinhavados. E quanto mais agradável fosse o quadro, mais à vontade todos se sentiriam para que isso acontecesse. 

Era preciso receber bem, manter um serviço perfeito - ou quase - criar uma atmosfera elegante e agradável, dar a cada convidado a impressão de que é o preferido, estar sempre vestida adequadamente, ter humor, e espírito, e, se possível, ter charme, falar bem e transmitir segurança. 

(...) É necessário que os jantares sejam os melhores e mais bonitos para que as pessoas estejam sempre interessadas em frequentar a casa. Tudo isso, é claro, cabia às mulheres. E naturalmente os maridos esperavam delas o máximo. Era onde entrava o trabalho dos bastidores. Um trabalho  pesado, difícil, sobretudo em países que não nos ofereciam grandes possibilidades de se obter as coisas mais simples. " Páginas 28-29.

"Era preciso reunir o número suficiente de pessoas - mas não muita gente -, ser uma presença sutil, saber escutar, sentir instintivamente para onde pendia a balança dos prestígios. 

Não há outra carreira em que a mulher tenha um papel tão fundamental, se levar à sério seus deveres! Mas, para ser assim, há um preço bem alto a pagar. É necessário esquecer-se de si mesma, e durante 24 horas por dia manter um elaborado plano de trabalho. É preciso ser incansável!


O que se torna uma escolha perigosa. É preciso muita lucidez e força de vontade para cumprir todas as tarefas que os maridos esperam, e ao mesmo tempo evitar tornar-se uma máquina incansável, trabalhando nos bastidores, mas mantendo a sensibilidade e integridade de ser humana." Página 66.


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