06/06/2015

Regras de Etiqueta - Parte VI: Precedência à mesa

Para mim, este é o mais difícil: ordem de precedência à mesa. Não só porque você deve levar muitas informações em conta, como porque pode resultar em um insulto ou deselegância. Encontrei em uma busca pela internet este texto de Rubem Queiroz Cobra. Ele é bem longo, mas me pareceu ter informações importantes. 

Tenho um livro de cerimonial de uma embaixatriz que explica de maneira mais clara como organizar os convidados à mesa, mas antes de publicá-lo, preferi transcrever este mais longo (e totalmente cansativo, por ser longo e bem descritivo) para depois publicar o dela que, diga-se de passagem, explica até como organizar a ordem se a mesa for redonda (nunca havia imaginado isso na minha vida, mas é útil). As fotos que coloquei neste post são somente para vermos de forma mais clara como ocorre a organização de jantares em cerimônias oficiais pelo mundo. A escolha foi aleatória.

Foto: UOL. Presidente François Hollande (à esquerda no centro) e o rei da Jordânia, Abdullah II (à direita no centro), participando de jantar.

Pela sua complexidade, a disposição dos lugares à mesa é um dos principais problemas do cerimonial oficial ou privado. Em sua solução estão envolvidas três disciplinas: Etiqueta, Protocolo e Boas-maneiras e, indiretamente, também a História.

A Etiqueta faz a qualificação da posição dos assentos. Diz, por exemplo, que as cabeceiras da mesa, devido a terem vista de todo o salão, por estarem no meio de um numero igual de assentos de um e outro lado; e por contarem com espaço mais amplo e melhores condições para serem servidas, e um maior número de interlocutores, são os lugares mais importantes ou mais valiosos “A” e “B”; a partir destes, qualifica os demais assentos em ordem decrescente de importância. O Protocolo determina “A” e “B” como assentos cativos dos anfitriões – os promotores do evento –, e aos demais, “lugares de honra”, para convidados. Verifica então a hierarquização da importância das pessoas para distribuí-las corretamente de acordo com o valor correspondente dos assentos. Em eventos oficiais, essa hierarquia é determinada por um Protocolo criado por decreto, ou pelo Protocolo que segue algum critério naturalmente reconhecido entre os membros de um clube, funcionários de uma empresa, ou objeto de um estatuto interno.

Figura 01
Em eventos não oficiais, poderá, por um motivo sutil para o qual o Protocolo é tecnicamente cego, deslocar um convidado e colocá-lo em mais evidência  que seus títulos justificariam.

Por uma deferência segundo os seus sentimentos, o anfitrião poderá, se assim desejar, ceder seu lugar – à cabeceira da mesa, no sistema inglês, ou no centro da mesa no sistema francês –,  a um convidado que ele queira reconhecer de modo especial, (por exemplo, um general, uma autoridade civil, um prelado), e ele próprio ocupar o lugar que estaria destinado ao convidado de honra.Este poderá aceitar ou não a deferência - mas a troca jamais será uma obrigação do anfitrião.

Historicamente, duas disposições de lugares se consagraram, a inglesa e a francesa, ambas mostradas na Fig. 1. A primeira disposição, a inglesa, tem A e B nas cabeceiras; na segunda, francesa, A e B se confrontam no centro da mesa. A disposição inglesa – o chefe da família ocupando a cabeceira da mesa, "A", e sua mulher, "B" – é tradicionalmente observada no Brasil desde a época colonial, conforme comentado já na minha página Mesa de refeições: seu aparelhamento e o uso dos talheres.

Foto: Governo do Canadá. Evento na Slovênia.

É regra também da Etiqueta que os assentos sejam alternadamente para homens e para mulheres, evitando-se  um homem sentado ao lado de outro, ou uma mulher ao lado de outra, e também que um homem seja colocado frente a uma mulher. Essa regra só é quebrada quando o grupo não corresponde idealmente a um número de casais completos. Devido a essa alternância obrigatória na ocupação dos assentos, resultará que o anfitrião terá uma mulher à sua esquerda e outra à sua direita, e a anfitriã terá um convidado homem de cada lado. Ambos devem colocar à sua direita o convidado ou convidada mais importante, e à sua esquerda o convidado ou convidada que sejam os segundos em importância.

Um exemplo simples, comum, e bastante ilustrativo, é o do casal que convida para almoçar ou jantar os seus sogros. A disposição seria como na Fig. 2:

Figura 02

Se, em mesas retangulares, para a observância dessa regra for necessário, a anfitriã deve ceder sua posição B, a fim de manter a alternância a partir do anfitrião em A, e a disposição frente a frente do mesmo sexo. Este problema surge quando o número de casais em uma mesa retangular é par.

Se ocorreu a necessidade da anfitriã ter o seu lugar deslocado, ela deve ocupar o extremo lateral direito, de modo que o convidado de honra – que é o mais importante – ficará à sua direita ao ocupar a cabeceira B.

Figura 03: Mesa Inglesa
A anfitriã que recebe sozinha, o Protocolo a coloca no lugar “A” pois este é o mais adequado para supervisionar o evento e coloca o convidado de honra na posição B. Se há mais de uma mesa, o convidado de honra será mantido à direita da anfitriã, no assento à direita de “A”. O anfitrião que recebe sozinho procederá do mesmo modo, colocando o convidado de honra em B, no caso de se tratar de uma única mesa. No caso de mais de uma mesa, colocará o convidado de honra na sua própria mesa, próximo de si, porém não nos dois lugares imediatamente ao seu lado, os quais serão ocupados pela mulher de primeira importância à sua direita, e pela segunda em importância, à sua esquerda, como dito acima.

A anfitriã é a primeira a sentar-se, e será seguida pelas demais mulheres. Antes de se sentarem, os homens devem ajudar a senhora á sua direita a se sentar, posicionando e empurrando convenientemente a cadeira, a fim de que ela possa ter as duas mãos livres para acomodar o vestido enquanto se senta. Feita esta gentileza, devem aguardar que o anfitrião se sente para ocuparem seus lugares. Alguns dos homem talvez tenham que ajudar a duas senhoras, primeiro à sua direita, depois à sua esquerda.

Foto: Wikipedia. Jantar na Casa Branca.

Se mais de uma mesa são usadas na recepção  – como em geral ocorre em um chá, ou em jantares de homenagem e jantares do ensaio, por exemplo  –,  os lugares cativos A e B (reservados à anfitriã e ao anfitrião) são os lugares extremos que se olham de cada uma de duas mesas diagonalmente mais afastadas no recinto (A e B na fig. 3). Lugares de honra são à direita de cada um, e outros, de importância secundária, em cada uma das demais mesas, a partir da posição mais privilegiada, em cada uma delas, em relação à visão do ambiente, à proximidade dos serviços, etc. ("a" na fig. 3).

Figura 03
Os lugares cativos são, portanto, os que têm condições mais privilegiadas, estão em oposição e são destinados aos anfitriões. Situam-se nos extremos da mesa retangular, quando se segue a etiqueta inglesa, ou no centro de seus lados opostos, quando se segue a etiqueta francesa. O assento principal A estará mais próximo da entrada de serviço da copa que o assento B.

Mesa Francesa
 Os membros de um casal e os amigos não são colocados juntos, mas separados e preferencialmente em mesas diferentes, havendo várias mesas Marido ao lado da mulher enseja comentários cochichados, e roda de amigos cria um grupinho exclusivo que ignora os demais convivas. Cabe aos anfitriões, preferencialmente à anfitriã, a indicação dos lugares aos convidados segundo seu conhecimento dos valores de cada assento e sua sensibilidade para a hierarquização da ocupação deles conforme um critério de importância dos convidados que tem. 

Cartões com o nome da pessoa à qual o lugar está reservado é muito prático, quando há um grande número de lugares (mais de seis pessoas). Os dizeres devem reduzir-se a duas ou três palavras que são o sobrenome do convidado ou convidada precedido de Sr. ou Sra. O primeiro nome ou o nome do meio pode ser acrescentado quando for necessário distinguir entre homônimos. Não utilizando cartões, o anfitrião ou a anfitriã convidam as pessoas a sentar, acompanhando-as aos lugares que lhes cabe.

A pessoa que convida amigos para uma refeição, seja em sua casa, seja em um restaurante, não deve fugir da prática de sugerir os lugares à mesa; e os convidados devem, também, aguardar que a anfitriã indique os lugares em que deseja ver cada um deles. De um modo geral a prioridade é dada de acordo com a importância social ou política do convidado, e por isso as regras do Protocolo precisam ser lembradas. 

Foto: Public Radio of Armenia. Jantar em Praga em homenagem ao Presidente armênio.

Porém, nas reuniões não oficiais, Boas Maneiras leva em conta fatores individuais a serem respeitados, e não apenas uma fria hierarquização de precedências baseada em determinado Protocolo. Por isto, a disposição de lugares pode considerar o grau de cultura, colocando-se frente e frente, ou na mesma mesa, pessoas de mesmo nível cultural, ou que se sabe terem afinidades ou interesses comuns. 

Os mais velhos podem necessitar de alguém ao seu lado que lhes dê assistência; a surdez unilateral de um convidado precisa ser levada em conta; um membro da família que tenha estado fora do país ou uma pessoa que tenha coisas para contar que interessam a todos precisa de uma posição mais privilegiada; um visitante estrangeiro precisa ter próximo de si alguém que fale sua língua, etc. Deve-se, no entanto, respeitar o mais possível as determinações da Etiqueta quanto a importância dos lugares, - inclusive a regra de distribuição alternada de homens e mulheres, - e do Protocolo, quanto à graduação para sua ocupação.

Saber o lugar que lhe cabe ocupar à mesa, quando os assentos não estão marcados e o anfitrião não cuidou de indicá-los, é prova de um bom conhecimento de Boas maneiras à mesa. Ao final da refeição, ao tempo do café e licores, as pessoas naturalmente se libertarão para conversar em grupos de conhecidos que têm interesses comuns.

Foto: Principado de Mônaco. Jantar para o Príncipe dos Países Baixos.

O assento principal A (destinado ao anfitrião) estará mais próximo da entrada de serviço da copa que o assento B, o que lhe permite acompanhar o serviço e zelar pela sua perfeição. Inclusive, a regra de distribuição alternada de homens e mulheres. As mulheres ocupam posições na importância correspondente à de seus maridos. Os casais convidados são sempre colocados separados, salvo o caso de que estejam juntos a menos de um ano.

Em uma mesa de coordenação ou mesa de reunião prevalecem hierarquia e interesses práticos, sem nenhuma preocupação com alternância de sexos.

Por uma deferência segundo os seus sentimentos, o anfitrião poderá ceder seu lugar a um convidado que ele queira reconhecer de modo especial, (p. ex., um general, uma autoridade civil, um prelado) o qual poderá aceitar ou não a deferência - mas tal troca jamais será uma obrigação do anfitrião.

Embora haja uma variedade de modos de servir, não variam as precedências a serem observadas no serviço à mesa. Em primeiro lugar é servida a senhora que está à direita do anfitrião; em seguida a senhora que está à esquerda do anfitrião; depois, as demais senhoras e por último, a anfitriã; em continuação, é servido o senhor que está à direita da anfitriã, e depois o que está à sua esquerda, e os demais homens, mesmo os mais jovens e adolescentes. Por último é servido o anfitrião.

Em caso de serviço ao bufê, o anfitrião e a anfitriã atuam no sentido de que a fila para servir espelhe ordem semelhante. Primeiro a senhora mais importante (aquela cujo assento está reservado do lado direito do anfitrião), depois a segunda em importância e assim sucessivamente. A última das mulheres a servir-se será a anfitriã e o último homem a servir-se será o anfitrião, o qual se sentará por último à mesa, entre as duas senhoras que foram as primeiras a tomar lugar.

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