27/08/2015

Artigos acadêmicos sobre expatriados

Hoje recebi da AFSI a indicação de um artigo muito legal sobre expatriação. Vocês podem encontrá-lo clicando aqui. A Associação está organizando um curso presencial e o material faz parte das leituras iniciais. Se você ainda não se inscreveu, acesse a página da AFSI e obtenha maiores informações. Me empolguei com a temática e separei alguns trechos desse e de mais alguns artigos para vocês. Vale a pena lê-los na íntegra. Dois deles falam sobre as fases pelas quais os expatriados passam. Já postamos um vídeo bem divertido e informativo sobre o tema aqui no blog, lembram?

Imagem: http://cornishkylie.com/2014/10/11/an-expat-state-of-mind/


Expatriação e Estratégia Internacional: o Papel da Família como Fator de Equilíbrio na Adaptação do Expatriado


Neuri Amabile Frigotto Pereira; Ricardo Pimentel; Heitor Takashi Kato

RESUMO
Este artigo procura destacar, por meio de uma revisão da literatura, a importância da internacionalização da estratégia das empresas e o papel da família do trabalhador no exterior, o expatriado, no processo de seu ajustamento ao novo ambiente. Sendo o ajustamento um fator importante para o sucesso da estratégia de internacionalização, discute-se a importância da internacionalização e da expatriação, a natureza da atividade do expatriado para as empresas, os desafios a serem enfrentados e o papel da família no processo de ajustamento. Conclui-se que a família é fundamental neste ajustamento, sendo apresentadas algumas sugestões de pesquisas a serem realizadas, bem como possíveis hipóteses a serem testadas.

Link: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-65552005000400004

"Estágio ‘Lua de Mel’. Nesta fase a esposa do expatriado e os filhos usualmente estão excitados com todas as coisas novas oferecidas no novo país; neste estágio, o sentimento é idêntico ao do turista. Este período pode variar entre duas semanas e alguns meses, quando então o segundo estágio aparece.

Estágio do Choque Cultural. Nesta fase, também chamada de fase da desilusão, a família começa a se sentir desconfortável com a vida diária no novo país. A interação com aspectos da cultura local, com comportamentos considerados não costumeiros e imprevisíveis, disparam reações de rejeição à nova cultura. Sentimentos de solidão, desconforto e desilusão aparecem; e podem causar ansiedade, stress e retorno prematuro. Esta fase que, em geral, dura de três a nove meses, requer uma reação adequada e muitos não são capazes de prosseguir para outros estágios, sendo esta a fase apontada nos estudos como crítica em termos de repatriação. Aqueles que sobrevivem a este estágio, em geral estão aptos para progredirem para o estágio do ajustamento.

Estágio de Ajustamento. É o período no qual os membros da família do expatriado se sentem confortáveis e, gradualmente, aceitam a nova cultura, passando a entender melhor o comportamento das pessoas. Sentem-se menos isolados, mais familiarizados com os costumes e condições, aprendem com a comunidade e progressivamente tornam-se capazes de operar a rotina diária apesar de alguns distúrbios. Este estágio ocorre, em geral, entre o sexto e o décimo segundo mês.

Estágio do Entusiasmo. Os indivíduos passam a gostar da cultura e suas rotinas diárias tornam-se fáceis de conduzir. Os aspectos positivos da nova cultura são percebidos e nasce um sentimento de pertencer ao local. Este estágio vai ocorrer após o décimo mês." Página 58.

_____________________________________________________

"Em vários sentidos o ajustamento intercultural da esposa e dos filhos é mais difícil do que o ajustamento do executivo expatriado. O expatriado, durante boa parte da semana, não entra em contato com a cultura do país em que trabalha, pois sua vida profissional encontra continuidade na empresa, onde conta com uma rede de relações que lhe dá suporte, bem como uma rede de troca de informações com o país de origem, vantagem de que a esposa e outros familiares não dispõem. Se em casa, o executivo conta com o apoio da família que, em geral, mantém a cultura do país de origem, o mesmo não pode ser dito da família.

A esposa do expatriado e os filhos, por outro lado, não têm acesso à continuidade organizacional, e experimentam uma interrupção nas suas vidas pessoais, nos seus relacionamentos, na rotina diária. Além disto, encontram pouca ajuda para administrar as demandas diárias em circunstâncias fora do ambiente familiar a que estavam habituados no país de origem." Página 62.

_________________________________________________________


"Considerando especificamente a família do expatriado, os principais fatores que contribuem para a adaptação das esposas dos expatriados são divididos em três grupos:

(1) fatores individuais, tais como fluência na língua, mudanças na condição de emprego (carreira), auto-eficácia em geral, e eficácia social. Cabe ressaltar que a diferença de cultura, que começa com a língua, pode, desde logo, criar erros de compreensão dos sistemas, podendo mesmo surgir mal-entendidos logo na fase inicial de conhecimento;

(2) fatores ambientais, tais como a novidade cultural (diferença entre a cultura do país de origem e o novo país), a orientação social do país hospedeiro (que inclui aspectos legais, econômicos, sociais, demográficos e políticos), os estilos cognitivos e psicossociológicos do novo país, o sistema de valores e crenças dominantes, os padrões de comunicação dominante, como língua e dialetos e a comunicação não verbal. Nesse grupo de fatores, o entendimento das diferenças culturais depende, muitas vezes, de uma abordagem multidisciplinar que inclua vertentes diferentes, como as da sociologia, economia, legislação, antropologia e psicologia social; e, por fim,

(3) fatores de relacionamento interpessoal, tais como os relacionamentos familiares e as redes de relacionamentos sociais. Nesse grupo cabe ressaltar que é importante avaliar aspectos ligados ao estágio do ciclo de vida, tais como os seguintes: se o indivíduo é solteiro; casado sem filhos; casado com filhos; se está no segundo casamento etc." Página 63.


Imagem: http://indianyouthkuwait.com

Os efeitos da expatriação sobre a identidade: estudo de caso


 Juan Miguel Rosa GonzálezI; José Arimatés de Oliveira


RESUMO
São apresentados depoimentos obtidos por meio de entrevistas semiestruturadas, com indivíduos que vivenciam atualmente ou vivenciaram no passado experiências de expatriação - depois de realizada a devida revisão de literatura. O objetivo principal é identificar nesses relatos a ocorrência de transformações, como consequência da expatriação, na identidade dos sujeitos; para o que foi tomado como marco teórico o conceito de self-shock (choque do eu) de Zaharna (1989). O estudo visa a também identificar nas experiências dos entrevistados a ocorrência de padrões de adaptação à cultura de destino propostos pela literatura clássica sobre expatriação. A análise dos resultados sugere a existência de sustentação empírica para a hipótese do self-shock. Contrariamente, na maioria dos relatos não foram identificadas experiências condizentes com os pressupostos centrais da teoria clássica sobre o processo de adaptação do expatriado.

Palavras-chave: Expatriação. Adaptação. Choque cultural. Choque do eu. Identidade

Link: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-39512011000400011&lang=pt


"Outro modelo de adaptação cultural foi proposto em 1995 por Kim, para quem o expatriado inevitavelmente atravessa um processo de aculturação-deculturação pelo aprendizado de novas expectativas culturais e o abandono de antigos padrões, processo que se traduz em uma dinâmica de estresse-adaptação-crescimento (KIM, 1995).

O modelo de Kim introduz, marcantemente, o conceito de crescimento e transformação pessoal, mas talvez seja Sussman quem contribua de forma mais determinante à compreensão do fenômeno de desconstrução-reconstrução identitária, com o seu Modelo de Identidade Cultural (Cultural Identity Model - CIM). O modelo baseia-se em quatro pressupostos principais (SUSSMAN, 2002, p. 394, tradução nossa):

Primeiro, a identidade cultural é um aspecto crítico, porém latente, do autoconceito; segundo, a saliência da identidade cultural é em grande parte consequência do início de uma transição cultural; terceiro, a identidade cultural é dinâmica e pode mudar como consequência de um processo de expatriação e distúrbios no autoconceito; quarto, mudanças na identidade cultural atuam como mediadores entre a adaptação cultural e a experiência de repatriação.

O modelo de Sussman sugere quatro tipos de identidade pós-adaptação que afetarão significativamente o momento do retorno ao país de origem. 

Tem-se, em primeiro lugar, a identidade afirmativa, proeminente quando a experiência da expatriação reafirma o indivíduo na sua cultura de origem, dificultando a adaptação ao país de destino, porém facilitando uma experiência positiva de repatriação. 

A identidade subtrativa, ao contrário, caracteriza-se quando o expatriado se sente menos ligado à sua cultura original, o que faz da repatriação uma experiência traumática. 

Sussman fala em identidade cultural aditiva quando há um ganho identitário pela adoção de muitos aspectos culturais da cultura hóspede, adoção suficientemente intensa para também dificultar o processo de repatriação.

Finalmente, a identidade global é característica de indivíduos com um longo currículo de experiências internacionais. Para eles, o movimento constante entre diferentes culturas só reforça o sentimento de pertencer a uma comunidade global e a hora da repatriação não lhes apresenta grandes dificuldades (SUSSMAN, 2002)."

Imagem: http://www.internations.org

Alteridade, expatriação e trabalho: implicações para a gestão organizacional

Hilka Vier Machado; Cláudio Aurélio Hernandes


RESUMO
A alteridade consiste na relação do indivíduo com o outro. É por meio dessa troca que cada um constrói ou reconstrói sua identidade. Por outro lado, situações de expatriação requerem redefinição das identidades, tanto no plano individual quanto no social. Tendo em vista esses aspectos, este estudo qualitativo e exploratório foi realizado sob a forma de estudos de casos, junto a nove pessoas que saíram de seus países de origem para trabalhar em outro país. O objetivo do estudo é investigar o processo de alteridade em expatriados e as suas implicações nas situações de trabalho. Os dados foram coletados por meio de entrevistas semi-estruturadas, gravadas e transcritas. O conteúdo foi analisado com apoio do software Nvivus e as seguintes categorias foram extraídas dos discursos: vida de expatriado, vida de repatriado e situações de trabalho. Finalmente, com base nos resultados encontrados, discute-se implicações do estudo nas organizações e na gestão organizacional.

Palavras-chave: identidade; alteridade; expatriação; relações de trabalho.

Link: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-65552004000300004&lang=pt


"Constatou-se que, na fase inicial da expatriação, a imersão dos indivíduos em outra cultura é acompanhada de exigências sociopsíquicas decorrentes da tentativa de enxergar-se na visão do outro, que constitui uma forma de verificar a aceitação social na nova cultura. Esses aspectos pareceram mais intensos do que as dificuldades da atividade em si. Há um esforço por parte do indivíduo em compreender, nas linhas e entrelinhas, os significados culturais do local onde está vivendo. Da mesma forma, quando retorna ao seu ambiente de origem, esse processo se repete; portanto expatriação e repatriação são fenômenos nos quais a alteridade tem grande impacto e que não podem ser desconsiderados em situações de trabalho."



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada pelo seu comentário!