04/08/2015

Estágio no Itamaraty: minha experiência

Anúncio de estágio em 2005
Minha história com o Itamaraty remonta ao início de 2005, quando ingressei no programa de estágio. Parece que foi ontem, me lembro direitinho. Eu estagiava em um escritório de advocacia, mas já tinha percebido que Direito do Trabalho e Direito Civil não eram a minha área e estava pensando em buscar algo relacionado às relações internacionais.

Em um belo dia, quando fui fazer minha inscrição em uma palestra no IREL-UnB, vi uma folha de papel A4 colada no mural do Instituto. Só dava para ver um pedaço (tinham outras folhas e cartazes em cima): "vaga para estágio no Departamento de Meio Ambiente e Temas Especiais do Ministério das Relações Exteriores". Isso foi o suficiente para que eu pegasse a folha (eu sei, que feio, mas eu não tinha caneta em mãos e celular naquela época - ao menos o meu - não tinha câmera), a levasse para casa e enviasse meu currículo para o e-mail indicado - notem na imagem ao lado que ainda era @mre.gov.br. Eu ainda tenho essa folha guardada em casa.

Para a minha sorte - e surpresa - aquele era o último dia de recebimento de currículos. Na mesma semana, me chamaram para uma entrevista. Quem me ligou foi a estagiária que seria substituída (hoje, amiga, Cecília Umetsu), que me indicou local, dia e horário. Eu nunca tinha visitado o prédio do MRE. Não fazia ideia de como era por dentro. Tudo parecia muito lúdico: aquele chão branco, as paredes de madeira e os espaços vazios do "bolo de noiva" me faziam sonhar com as grandes negociações que eu imaginava acontecerem por lá. A entrevista foi bem interessante. Quem a conduziu foi o então Primeiro-Secretário Bernardo Paranhos, Assessor no DME. Eu me lembro de olhar para ele e pensar: "Uau. Um diplomata". Eu nunca tinha visto um diplomata pessoalmente (eu era "jeca", eu sei). Ele me perguntou sobre conhecimentos e experiência profissional. Contei que cursava Letras-Tradução Inglês e Direito, que estudava vários idiomas na UnB (Inglês, Francês, Espanhol, Italiano, Alemão, Chinês, Árabe e Persa) e que meu sonho era ser diplomata. Só tinha experiência profissional no escritório de advocacia no qual estava estagiando, mas entedia de marcos regulatórios de Meio Ambiente.

Essa foto ficou tão feia que
não tive coragem de mostrar
Na semana seguinte, me ligaram: a vaga era minha. Foram poucas as vezes que fiquei tão feliz em ser selecionada para um estágio. Essa foi a primeira delas. Após alguns meses de Itamaraty, aquele deslumbramento foi passando e eu fui começando a aprender sobre política externa, em especial na área de Meio Ambiente. O Chefe do DME era o então Ministro Everton Vargas, que também era professor no IRBr. Ele sempre me passava leituras (artigos e tratados) sobre as Conferências de Biossegurança e regras internacionais sobre meio ambiente. Eu lia tudo com muito interesse e avidez. Tive muita sorte com ambos os chefes! Na sala do Assessor, a parede era repleta de livros. Sempre que dava tempo (entre uma tarefa e outra), eu pegava um emprestado. Também tive sorte de estagiar bem no período preparatório para a II e III COP/MOP da Convenção de Diversidade Biológica (Montreal 2005 e Curitiba 2006), o que me possibilitava aprender bastante.

Fiz várias amizades na época de DME. Pude conversar com alguns diplomatas sobre a carreira e a vida no serviço exterior, o que me ajudou muito a decidir de forma mais consciente a fazer o concurso. Alguns dos amigos que serão sempre lembrados são o Seu Cícero (contínuo do DME, um senhor de idade de mais de 25 anos de Itamaraty e um coração de ouro); Fabiano Barakinha, OfChan do Departamento, que também era meu supervisor; e um funcionário da limpeza, que nunca me disse o nome dele, mas que fui encontrar três anos depois no Superior Tribunal Militar (essa história é interessante, ele sonhava cursar faculdade de filosofia, me falou isso em uma de nossas conversas que tínhamos enquanto ele limpava a sala antes do expediente começar. E quando o reencontrei em 2008, nos reconhecemos e ele me contou muito feliz que tinha entrado na universidade).

Após seis meses de DME, em um almoço no restaurante do subsolo, eu estava conversando com o pessoal da limpeza (que sempre está por dentro de tudo) e comentei que estudava direito para ser diplomata. A Claudete me falou que ia abrir uma vaga de estágio na Consultoria Jurídica e me perguntou se eu tinha interesse. Na hora falei super animada que sim! Fui rapidinho para a sala da do CJ (era pertinho do DME, acho que duas ou três portas ao lado) e lá encontrei o José Luiz, OfChan no gabinete do CJ. Perguntei a eles sobre a vaga e o Zé (apelido que acabou ficando) me falou para deixar o currículo, que ele entregaria ao Consultor. Olha só a minha sorte: na hora, sai da sala o Prof. Dr. Cachapuz (Chefe da Consultoria) e o Zé me apresentou a ele, dizendo que estava interessada no estágio. Parece que ele me reconheceu de um grupo de pesquisas em Direito do Mercosul do UniCEUB (eu era nerd mesmo, e daí?) e disse para enviar meu currículo para o processo seletivo.

Mais um processo seletivo de estagiário no Itamaraty, dessa vez para a área jurídica. A entrevista não foi menos rígida do que a outra. Antecedentes acadêmicos e profissionais mais uma vez eram um requisito de peso. O próprio CJ conduziu a entrevista. Eu estava diante da maior autoridade jurídica em Direito Internacional do MRE (!), mais uma vez me peguei pensando "Uau". Fui selecionada para começar o quanto antes - a estagiária que eu substituiria já tinha saído. Acabei, para não sair sem avisar com antecedência, ficando mais duas semanas no Departamento, antes de ir para a Consultoria. Nessas semanas, o então Ministro Luiz Alberto Figueiredo tinha acabado de ser nomeado Chefe do DME.

Foi muito legal

Bem, estágio novo, vida nova, amigos novos, conhecimentos novos. O Zé, a Claudete, seu João (Acham) o Ricardo Bartholomeu e a Karin Vazquez - estes dois, recém chegados do novo concurso de OfChan - foram meu novos colegas de trabalho e amigos que levarei para sempre. O estágio foi ótimo, eu pude ler quase todos os pareceres da área de Direito Internacional, que foram para a coleção histórica que a FUNAG publicou - e que estava sendo organizada à época. Pude apoiar a parte administrativa e assistir às Jornadas de Direito Internacional Público do Itamaraty, que estavam sendo organizadas pelo CJ e pela então Ministra Ana Lélia Beltrame - ela foi tão legal que conseguiu um livro dedicado do Prof. Marotta Rangel para mim. Olha só a foto.

Dedicatória no livro.
Clique para ampliar
Bem, após mais seis meses no Itamaraty - somando, ao todo, um ano, apareceu uma ótima oportunidade de estágio na área de Direito Internacional, mas em outro órgão federal. Saí do MRE muito contente com os doze meses de aprendizado e com os amigos que fiz. Sei que nem todas as pessoas tiveram e têm a mesma sorte que eu, mas digo que valeu muito a pena. Um bom estágio depende da vontade do estagiário aprender, do supervisor e dos colegas e eu tive os melhores do mundo. Se vocês estiverem lendo este post, queria agradecer a todos os que foram citados aqui e aos, à época, Secretários da DEMA e do DMAE, que me ajudaram - com suas histórias e vivências - a gostar mais ainda do ministério e da carreira no serviço exterior.

O objetivo deste post foi contar um pouco da minha experiência positiva como estagiária e dizer para quem está de fora do Itamaraty e pensa que as pessoas são frias e esnobes, que só encontrei pessoas legais. Não é um post "Pollyana", mas a realidade com a qual me deparei. Ah, o ministério ainda tem programa de estágio. Informações no link: www.itamaraty.gov.br.

Eu e o Professor Marotta Rangel no Itamaraty


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