16/11/2015

O dia em que fiquei invisível

Imagem: brohawk.deviantart.com
Peter Parker tornou-se o homem aranha quando foi picado por um aracnídeo exposto à radioatividade. Steven Rogers se transformou no Capitão América após um experimento militar e James Howlett, conhecido como Logan, um dia acordou em um laboratório como Wolverine. 

E quanto a mim? Um belo dia me casei com um diplomata e, por alguma força oculta e totalmente desconhecida pela ciência ocidental moderna, me transformei em uma mulher invisível. Não, essa não é uma nova história em quadrinhos da Marvel Comics. Infelizmente é a vida real. 

Vou tentar me explicar: já trabalhei em organismos internacionais, estudei dez idiomas, fui aluna-monitora de Árabe e de Direito Internacional durante a graduação, já recebi cinco bolsas de estudos para fazer pesquisa acadêmica, sou advogada, estou concluindo um doutorado, tenho mais de trinta trabalhos acadêmicos publicados e conheço diferentes países. Sempre gostei de aprender coisas novas, conhecer pessoas e conversar sobre os mais diversos assuntos (desde a vida das Kardashian e Jenner - que btw sigo no instagram-, passando por Ru Paul's Drag Race, até política externa e economia). E sempre me senti capaz de ter um diálogo minimamente interessante com outros seres humanos. Pois bem, em diversas ocasiões (para não dizer em todas, já que posso estar me esquecendo de alguma), quando estou em algum evento social e sou apresentada como esposa de diplomata (diplo wife), as pessoas automaticamente me dão um sorriso simpático e: 1) conversam somente com o meu marido, me ignorando totalmente; 2) param de ter contato visual comigo ou educadamente me excluem da conversa; 3) me perguntam sobre o trabalho do meu marido; 4) me perguntam sobre fofocas internas do Itamaraty. 

Não vou fazer um manifesto ou começar uma revolução com uma hashtag, mas queria compartilhar com vocês essa sensação ruim de parecer invisível aos olhos dos demais e de ser tratada como um simples adereço para o braço do meu marido. 

Ok, vocês podem estar pensando: "mas o seu blog se chama diplowife!". Indeed, my friend! Mas aqui eu não fico falando sobre as maravilhas de acompanhar meu marido ou sobre as últimas fofocas da vida das pessoas do MRE. Aliás, detesto fofoca. O foco aqui no blog sempre foi trocar experiências e informações interessantes. Pois - acredito eu -, os cônjuges do serviço exterior são pessoas tão importantes quanto os seus respectivos. E são pessoas tão competentes quanto e tão inteligentes quanto. Simplesmente não consigo entender o porque de algumas pessoas me tratarem como seu eu fosse acéfala, inútil ou fútil. Em que século essas pessoas vivem? 

Vocês devem estar querendo saber o que aconteceu para que eu escrevesse este post. Neste final de semana, eu estava assistindo à série de comédia Master of None (que, aliás, recomendo. Azis Ansari é um dos melhores comediantes da sua geração) e em um episódio da primeira temporada o assunto foi machismo. Basicamente, as mulheres contavam problemas do dia a dia, de uma forma engraçada, apesar de o assunto ser sério. Pensei então que deveria escrever sobre um problema do meu dia a dia também. E assim surgiu este post. 

Então, para concluir, peço encarecidamente: me tratem (e aos demais cônjuges) como uma pessoa normal, não como uma mulher invisível. Obrigada.

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