13/11/2015

O trabalho do Oficial de Chancelaria

A véspera do tão aguardado concurso para Oficial de Chancelaria trouxe à tona várias discussões e dúvidas sobre quais são as atribuições do cargo, o dia a dia e os desafios dessa carreira do Serviço Exterior Brasileiro. Fiz um convite, no Facebook, aos OfChans que desejassem contar um pouco mais sobre seu trabalho. O convite ainda está aberto. Quem quiser contar sua história, é só me enviar um e-mail (lateral do blog) com o texto, que publicarei na íntegra, sem modificações. 

Eis o primeiro relato recebido. Obrigada!

"Um pouco sobre minha trajetória no serviço público. Eu fui agente administrativo do Ministério do Trabalho e Emprego por um ano e analista administrativo por três anos no Ministério dos Transportes. Em ambos ministérios trabalhei na área de contratos. 

Sou oficial de chancelaria há 2 anos e meio e resumo minhas experiências neste curto período de Itamaraty a seguir. 

Quando entrei no MRE, fui lotado na Agência Brasileira de Cooperação. Sou advogado e nunca pensei em trabalhar com relações internacionais e tinha uma ideia muito vaga do que era a Cooperação Técnica Internacional (ou Cooperação Internacional para o Desenvolvimento). Tive que aprender do zero os fundamentos da cooperação internacional e do sistema ONU, os quais eu só conhecia por leituras. Trabalhei com o PNUD, a ONU Habitat, a ONU Mulheres e com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Acompanhei projetos na área de saúde, assistência social, empoderamento de mulheres, difusão do idioma português, comunidades indígenas, segurança pública, entre outros. Pela ABC, participei de uma conferência internacional de cooperação da ONU em São Paulo e uma conferência internacional  de cooperação dos países de língua portuguesa em Lisboa. Eu, que nunca pensei em trabalhar com relações internacionais nem diplomacia, trabalhei com ambas, e gostei. 

Quando eu completava 10 meses de ABC uma colega divulgou que um diplomata que trabalhava no gabinete do Ministro-Chefe da Secretaria de Aviação Civil (SAC) da Presidência da República estava buscando um oficial de chancelaria para trabalhar lá. Eu me candidatei, marquei entrevista com o referido diplomata, que gostou de mim e me apresentou ao então Ministro de Estado da Aviação Civil, o qual concordou com minha contratação. Mais um vez o MRE me proporcionou trabalhar com temas que eu jamais imaginaria. No gabinete eu trabalhava com cerimonial, assessoria internacional, secretariado do Ministro e, novamente, cooperação internacional.  Participei de reuniões com presidentes de empresas aéreas de diversos países, embaixadores e diplomatas brasileiros e estrangeiros e muitos parlamentares. Vi de perto a criação e o desenvolvimento de políticas nacionais de aviação civil. 

Chegaram as eleições presidenciais e recebi notícia que o Ministro da SAC seria trocado no novo governo, e, naturalmente, seu gabinete. Solicitei, então, meu retorno ao Itamaraty e me candidatei a realizar uma missão transitória. Como eu estava cedido à Presidência da República, eu não precisava de autorização da chefia. Deste modo, fui designado para trabalhar 2 meses em Nairóbi, onde lidei com administração, comunicações, contabilidade e patrimônio. Participei, também, da celebração do casamento de dois brasileiros em nossa embaixada, o momento mais emotivo da minha carreira. Para relatar minhas experiências pessoais e culturais nesse curto período no Quênia seria necessário um espaço não tão curto, de modo que apenas registro que foram intensas e engrandecedoras. 

Ao retornar ao Brasil, fui lotado na Divisão de Serviços Gerais e trabalho com a elaboração de termos de referência, que são os documentos que iniciam todos os processos de licitação. For the record: há 3 diplomatas em minha área, todos trabalhando com administração. Como se vê, nem os diplomatas trabalham exclusivamente com diplomacia e nem os oficiais de chancelaria trabalham unicamente com administração. Tudo depende de onde o servidor é lotado e aí está, pra mim, a melhor coisa do MRE: sua única certeza é que você jamais saberá com o que estará trabalhando no futuro próximo. Nem onde. Nem com quem." Samir Funchal.

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