22/12/2015

Brasília: posto sacrifício? - Parte IV

Painel de Azulejos de Athos Bulcão. (Foto: dasartes.com.br)

Relato de diplomata amigx do blog sobre Brasília.

"Acho interessante a expressão "posto de sacrifício" como sinônimo da categoria D adotada atualmente para a classificação dos postos brasileiros no exterior. Por um lado, a expressão é forte, comunicativa e, por isso, gosto dela. Por outro, acho que ela embute uma série de distorções e reforça a idealização de um circuito Elizabeth Arden cheio de benefícios e para onde todos devem tentar ir o mais rápido possível. Não é bem assim que as coisas funcionam: dependendo do perfil do diplomata e/ou de sua de relação com o chefe e os colegas, Paris pode revelar-se um posto de sacrifício, e Ouagadougou pode terminar sendo um lugar de realizações pessoais e profissionais...

É comum se perguntar e ouvir colegas se perguntando em que letra de A a D Brasília poderia ser encaixada. Ao longo do tempo, já classifiquei mentalmente a cidade de várias maneiras. Hoje -e amanhã tudo pode mudar-, classifico-a como um posto B com matizes de posto A e de posto C.

Antes de começar a falar um pouco da minha experiência com a cidade, é preciso ter em mente que todo forasteiro aprovado no concurso de admissão  à carreira diplomática não usufrui Brasília por inteiro em seu primeiro ano e meio (antigamente, dois) por aqui. Há um concorrente chamado Instituto Rio Branco que invade fins de semanas com trabalhos, exercícios, redações, estudos para provas. Seja você um estudante competitivo, seja você alguém que prefere um ritmo menos intenso, é impossível ter uma relação incondicional com a cidade nesse período. A pessoa está em pleno sábado no restaurante, na frente da TV vendo seriado ou no samba, mas algo dentro dela recorda que existe uma prova na segunda-feira (e ninguém quer fazer muito feio) ou um trabalho de vinte e cinco páginas para entregar na sexta-feira. Em suma, você começa sua relação com Brasília pelas beiradas, muitas vezes com culpa de estar vivendo a cidade em vez de atender às demandas de sua concorrência.

Por suas características arquitetônico-urbanísticas, Brasília é diferente para qualquer um que acaba de chegar. Grosso modo, contudo, há dois perfis de novato: o sujeito que veio de uma cidade menor, com menos opções culturais e gastroetílicas, e aquele que veio de uma cidade maior e mais vibrante. Eu enquadro-me na segunda categoria. Mesmo durante a preparação para o concurso, costumava viver a minha antiga cidade de maneira bem intensa, sempre em algum programa cultural, restaurante, bar ou festa. Essa intensidade na cidade anterior ajuda a explicar o baque que é vir morar em uma cidade com menos festas, menos shows, menos concertos, menos filmes, menos peças, menos exposições, menos restaurantes bons, menos bares bons.

Existem duas maneiras de lidar com o baque: a primeira é virar um nostálgico de uma cidade mais vibrante perdida para sempre, a outra é tentar virar-se com o que você tem (com a ajuda providencial e esporádica do aeroporto, evidentemente). Racionalmente, a segunda opção parece a mais acertada, mas, como ninguém é perfeito, volta e meia você se vê em recaídas de inglês vitoriano praguejando contra a vida nos trópicos. É do jogo. Na maioria das vezes, entretanto, tento conformar-me com o que tenho para hoje e extrair o melhor possível disso. Afinal, se você não é uma pessoa curiosa, até Nova York pode terminar sendo um tédio desprovido de atrativos.

Uma das estratégias para tornar uma cidade atraente é transformá-la em uma gincana de endereços a visitar. Minha primeira providência ao chegar a Brasília foi comprar o guia anual de uma revista semanal de circulação nacional com opções de comida e bebida. Também criei listas de lugares a conhecer e de lugares visitados no aplicativo Foursquare. A revista semanal está cheia de checks, e a lista de visitados do Foursquare só cresce. Com o fim do guia anual da revista semanal, comecei a procurar blogs e outros sites de notícias para descobrir novidades. Penso "a oferta é problemática, mas, pelo menos, estou em um jogo de conhecer uma cidade do zero e, eventualmente, deparo com algo que merece ser revisitado e entrar no mapa afetivo".

O cansaço dos estudos certamente reduziu, nos meus primeiros tempos, o apetite por peças, filmes, shows, pontos turísticos e escapadas para a natureza. Saber que essas coisas existem, mesmo que em grau reduzido -e saber onde procurá-las quando o turbilhão acaba-, é também fundamental para aproveitar melhor a cidade quando ela começa de verdade.

Enfim, gosto de imaginar Brasília como um painel de Athos Bulcão, com cada desenho de azulejo apontando para uma direção. Se por um lado é triste ir a um restaurante e o prato menos clichê não estar disponível ou não vir bem preparado, por outro é sempre possível tomar um café bom, em um lugar atualizado que bem poderia estar na minha antiga cidade (perdoem-me, a tentação de nostalgia às vezes me acomete, não somos perfeitos). Se por um lado é triste ver motoristas fazendo gestos obscenos no Eixinho porque o carro está na velocidade certa não apenas na hora de passar pelo radar, por outro é uma alegria civilizacional existir algo chamado sinal de vida."

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada pelo seu comentário!