17/12/2015

Entrevista com o Sommelier Ernesto Vasconcelos

Ernesto Vasconcelos atua na área há mais de 20 anos. É sommelier da Wine Education, ministra palestras, cursos e degustações de vinhos para equipes e consumidores  em lojas, supermercados e restaurantes. Treina e recicla equipes demonstradoras do atacado e vendedores (atacado, restaurantes, lojas e franquias). Ernesto já participou de viagens técnicas a diversos países e regiões vinícolas  tais como Portugal, França, Itália, Espanha, E.U.A., Chile, Argentina, Brasil e outros. Dentre suas experiências profissionais estão: sommelier na Expand e Wine Premium, sommelier/gerente On Trade da Porto a Porto Importadora (Brasil), Coordenador On-Trade/Sommelier da Chandon do Brasil (Brasil), sommelier/maître do La Vecchia Cucina Ristorante de Sergio Arno (Brasil), wine steward nos navios MV Horizon e Discovery I (Caribe) e wine steward nos restaurantes Palm's Restaurant (Fort Lauderdale)  e Omar's Restaurant (Miami). 

Contatos profissionais: 


1) Ernesto, conte um pouco sobre sua formação e trajetória como sommelier.

Me formei em letras e trabalhei como técnico petroquímico em uma empresa da Petrobras (Petroquímica União) antes de ir morar na Flórida, EUA em 1988 onde comecei a me envolver com vinho profissionalmente. Lá fora o aprendizado era muito mais tranquilo e prazeroso, provávamos e conversávamos sobre o assunto. Quando fui trabalhar em navios (Cruise ships) tínhamos treinamentos semanalmente com os vinhos da carta e se abordava bastante as técnicas de vendas e informações sobre os produtos. Passei alguns meses morando e trabalhando em Lisboa antes de retornar ao Brasil em 1991. Chegando aqui, fui trabalhar no La Vecchia Cucina do Chef Sergio Arno por 8 anos, numa época que quase não havia sommeliers no Brasil e os vinhos mais vendidos eram Frascati, Valpolicella e o Liebfraumilch. Nesse período, viajava juntos com outros poucos sommeliers para regiões vinícolas e feiras internacionais como VINEXPO e VINITALY. Após o La Vecchia, passei a trabalhar em várias importadoras em diversos estados brasileiros e atualmente estou com a minha empresa Wine Education (www.wineeducation.com.br) e desenvolvo vários trabalhos relacionados a vinho nos segmentos de restaurantes, lojas, supermercados, empresas, confrarias, etc.


2) Soube que você foi o sommelier encarregado da delegação do Papa Bento XVI, quando ele veio ao Brasil em 2007, como foi a experiência?

Fiquei responsável no período em que ele ficou hospedado em Aparecida, ajudei a escolher os vinhos de acordo com o cardápio que foi elaborado para o e período. Como no interior a mão de obra era precária e muito pouca, muita coisa começou a ficar sob minha responsabilidade. Cheguei uma semana antes no local, Seminário Bom Jesus, e não havia praticamente nada, apenas um fogão industrial e um Forno Combinado novo recebido de doação. Não tinha cadeira, mesas, toalhas, cortinas, frezzers, bancadas, ou seja, praticamente ZERO. 

Na época era Sommelier da EXPAND e através dela começamos a contatar pessoas e empresas para nos ajudar no evento. Conseguimos finalizar tudo até o último minuto, mas foi um período em que dormia em média 3 horas e como ninguém de fora da delegação podia dormir no seminário, o único local que consegui foi na casa de um amigo em Lorena, 25 km de Aparecida e ainda levava e trazia algumas pessoas do staff

Com a chegada do Papa Bento XVI, após as refeições, tinha que sair para fazer mais compras pois o que tínhamos planejado era sempre consumido, pois, além dos Bispos, Cardeais, Guarda Suíça, etc., várias pessoas aproveitavam aumentando ainda mais o trabalho. Já em relação ao Papa, a maioria das refeições eram feitas em uma sala especialmente preparada para ele e seus convidados (máximo 8 pessoas) e sendo apenas um dia, almoço de sábado que foi com todas autoridades da igreja católica que estavam no evento (perto de 60 pessoas).


3) De que outras personalidades você foi o sommelier? / ou / Se lembra de situações divertidas ou interessantes que possa nos contar

Na década de 90, cheguei a atender o Vice-Presidente do EUA, Dan Quayle e toda a comitiva, além dos vinhos, tive que anotar os pedidos dos pratos, pois naquela época, pouquíssimos profissionais falavam outros idiomas. Por causa disso, alguns clientes de algumas multinacionais, traziam pessoas de fora para o La Vecchia Cucina dado a dificuldade de encontrar restaurantes com profissionais bilíngue. Situações divertidas sempre tem, mas sempre lembrado após os eventos, porque durante, a correria era muita e não tínhamos tempo para conversar sobre outro assunto que não fosse o trabalho.


4) Como grande conhecedor de vinhos, quais são suas preferências?

Vinhos para mim têm várias fases. Nesse momento que estou morando em Goiânia, que é uma cidade de clima quente e abafado, estou provando muito espumante, brancos frescos e leves, rosados e tintos leves. Já no período em que morei em Curitiba, boa parte dos vinhos eram os tintos. Costumo dizer que temos que harmonizar o vinho não só com as comidas, mas também com os locais onde estamos. Já quando estou trabalhando, não posso escolher, pois se for uma degustação de vinhos Barolo, por exemplo, independente da temperatura ambiente estiver quente, nessa hora não podemos escolher e temos que realizar nossa função.  


5) Conte-nos sobre um vinho inesquecível.

Eu não digo que tenho um “vinho inesquecível”, mas tenho vários momentos inesquecíveis regados a vinho. A própria passagem do Papa Bento XVI ao Brasil foi um desses. Outro interessante era quando o Sr. Aubert de Villeine, Proprietaria da Domaine La Romanee Conti vinha ao Brasil, eu era escalado para abrir e provar todos os vinhos antes de servir, sabendo que o Romanee Conti é um vinho caríssimo mais comentado do mundo e o menos bebido, devido a sua baixa produção. Outra passagem interessante foi um jantar para a Sra Beatrice Cointreau, proprietária da casa de Champagne Gosset, nesse evento, na casa do proprietário da importadora, eu ficava abrindo vários Champagnes a vista dos convidados na área da piscina com uma espada (Sabrage). E vários outros momentos, já que o vinho tem essa mágica de transformar momentos comuns em momentos especiais e inesquecíveis. 


6) Que dica daria aos leitores do blog, que não conhecem vinhos e gostariam de comprar uma boa garrafa?

Sempre dou 3 dicas:
  1.  beba bastante vinho, de preferência sempre experimentando vinhos diferentes, uvas diferentes, países diferentes, regiões diferentes e produtores diferentes. Nunca fique repetindo sempre os mesmos vinhos, seja aventureiro.
  2. leia bastante sobre vinhos, não pontuações nem os críticos de vinhos, mas a historia de cada um deles, os países, curiosidades, pois acho que o vinho é uma bebida muito especial para ficar apenas resumido ao número dos pontos e ao paladar de algum “expert”.
  3. converse sobre vinhos, procure alguns amigos que tem o mesmo gosto pela bebida e troque informações e dê e receba dicas de outros vinhos, curiosidades e até viagens.

7) Que dica daria aos leitores do blog que viajam bastante e podem comprar vinhos em diferentes países?

Minha dica é que se aproveita sempre os vinhos locais com a culinária local, visite se possível alguns produtores próximos, tentar aprender um pouco mais com eles. Nesse momento o viajante poderá provar um vinho da região, com a gastronomia local e cercado do ambiente natural onde tudo isso nasceu. É nessas horas que encontramos os momentos inesquecíveis que os vinhos nos proporcionam.
Saúde!!!

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