22/12/2015

Literatura e Diplomacia - Entrevista com Felipe Fortuna

Felipe Fortuna é poeta, ensaísta, professor e diplomata. Formado em Letras (Português-Literaturas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Mestre em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), ingressou no Ministério das Relações Exteriores no ano de 1990. É Ministro da carreira diplomática desde 2010. Serviu em missão permanente nas Embaixadas do Brasil em Londres, Caracas e Moscou. Atualmente, é assessor da Secretaria-Geral das Relações Exteriores, professor de Linguagem Diplomática no Rio Branco e membro do Conselho Editorial da Fundação Alexandre de Gusmão. Recentemente, publicou os livros Esta poesia e mais outra (2010), de crítica literária; A mesma coisa (2012) e O mundo à solta (2014), ambos de poemas. Neste mês, lançou o livro Taturana, de poemas visuais. Mais informações sobre o autor e suas obras em: www.felipefortuna.com


O senhor se lembra de quando começou seu gosto pela literatura? Com que idade começou a escrever poesias e ensaios?
Foi no colégio – ali por volta dos 11, 12 anos – que comecei a me interessar por literatura. Um pouco antes, havia lido livros como Viagens de Gulliver e Hucleberry Finn que me impressionaram muito. Comecei então a escrever pequenas histórias ou crônicas – e, mais adiante, comecei a fazer jornais mimeografados, que eram distribuídos para os alunos. Com 14 anos eu já estava certo de que seria escritor: os meus amigos diziam que eu “sabia escrever”, eu já havia desenvolvido um espírito crítico capaz de reconhecer falhas literárias em mim e em textos alheios, e estava muito interessado pelos poetas do Modernismo: Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo e Carlos Drummond de Andrade, principalmente. Os amigos do colégio foram o meu primeiro público – e foi lá que defini meus gostos literários.


Como e quando foi a decisão de escrever profissionalmente?
Escrever profissionalmente, no Brasil, que tem índices tão baixos de leitura, tiragens mínimas em relação à população, é quase sempre ilusório. O que existe é um sentido de responsabilidade do escritor, que acaba desenvolvendo um padrão de exigência para o seu trabalho. Assim sendo, minha passagem pela faculdade de Letras foi importante para me dar conta de que eu tinha algo a fazer na crítica literária. E, na poesia, o importante é sempre acumular leituras, para desconfiar de que se pode ir bem mais adiante – quando o poeta se vê muito satisfeito com o seu trabalho...


De acordo com a sua concepção, a qual ou a quais escola literária suas obras pertencem? Esse enquadramento é algo que com o qual se preocupa?
Não faço a menor ideia, sinceramente. Já me enquadraram numa geração 80 (há uma antologia sobre isso), mas alguns poetas que estrearam nos anos 90 são mais velhos do que eu... E desconheço qualquer –ismo que nos classifique a todos – ainda bem! Há mais poetas em atividade hoje do que no Modernismo, mas não estou seguro de que o número de leitores tenha aumentado na mesma proporção... Nenhum poeta, creio, se preocupa com enquadramentos – a maioria dos poetas quer mesmo é ser um ponto fora da curva na sua própria geração.


Obra mais recente do autor, publicada neste mês
Dizem que todo autor tem um local para inspiração. Onde o senhor gosta de compor? Quais são suas inspirações?
O melhor local de inspiração de um escritor é a rotina. Reservar sempre um tempo para escrever, não importando o cansaço ou qualquer outra atribulação. Por isso mesmo há um debate sobre se a inspiração realmente existe. Há quem escreva rapidamente um poema que já aparece pronto; mas também há quem escreva depois de um longo processo de depuração e reflexão. Eu costumo me beneficiar muito da rotina, ou seja, do fato de que a escrita é algo importante para mim e, por isso, terá sempre um tempo para ser realizada. Sento-me diante de uma mesa, a da sala, a do escritório, algumas vezes a do meu trabalho, e consigo escrever algo.
A inspiração de um autor é a sua atividade. Um poema atende a muitas exigências e, assim sendo, pode surgir de um complexo de muitas situações. Mas uma resenha atende a exigências diferentes, e assim por diante, em relação a uma crônica, um conto, um romance...


Livros são como filhos: por mais que neguemos, sempre há um mais querido. Dentre as suas obras, qual é a sua preferida?
Eu gosto do meu primeiro livro, Ou vice-versa (1986), porque acredito ter sido uma estreia na qual já consigo transmitir uma voz pessoal. Gosto de alguns poemas do meu segundo livro, Atrito (1992), em especial o conjunto intitulado “Poemas para a Aula de Ginástica”. Tenho muita afeição por Curvas, ladeiras – bairro de Santa Teresa (1998), pois transmite a memória de quem havia deixado um bairro e uma cidade para viver em outro país. Gosto de O mundo à solta (2014), porque é a realização de um livro planejado sobre assuntos que me incomodam muito. Mas não consigo definir um livro meu preferido...


O seu ingresso na carreira diplomática, em 1990, teve alguma relação com seu gosto pelas letras?
Não creio. Eu gosto de política – aprendi a gostar de política a partir da experiência de jornalista e humorista do meu pai, Fortuna. Sempre foi um assunto presente em casa. As discussões sobre as grandes teses da esquerda, as ameaças da direita (estávamos em meio a uma ditadura, que só abrandou a partir da Lei de Anistia, em 1979), tudo isso serviu para a minha formação. E havia o reconhecimento diplomático de países como Cuba, Angola, como a China... Eu me convenci de que a política externa mantinha uma coerência nem sempre encontrada no plano estritamente local, e isso também me agradou. Ao lado disso, é claro, havia a minha grande admiração por escritores-diplomatas como Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, José Guilherme Merquior, que eu lia atentamente e observava as influências dos países em que trabalharam...


Affonso Arinos, Aluísio Azevedo, Antônio Houaiss, Domício da Gama, Evaldo Cabral de Mello, Graça Aranha e Joaquim Nabuco foram grandes diplomatas e membros da Academia Brasileira de Letras. Na sua opinião existe uma relação entre diplomacia e literatura?
Sim, estou convencido de que existe uma relação entre diplomacia e literatura. Em 2009, Timothy Hampton, em Fictions of Embassy, demonstrou como o estilo literário europeu se consolidou com a formação dos Estados, por volta do século XVI, e as repercussões disso sobre a produção de livros – por exemplo, Os Lusíadas e Hamlet. A diplomacia envolve negociação, diversidade, deslocamentos, distância, política – enfim, uma série de aspectos que tem muita importância para a formação de um escritor.

O senhor é professor de Linguagem Diplomática no Instituto Rio Branco. A língua é um instrumento de formação do jovem diplomata?
Eu divido meu curso em duas grandes áreas: a da redação profissional (que tem a ver com o conhecimento da linguagem oficial dos documentos) e a da reflexão sobre a linguagem (que tem a ver, por exemplo, com o domínio da ambiguidade, o registro a ser utilizado em diferentes ocasiões). Como se sabe, a linguagem é essencial para todo e qualquer diplomata: está na raiz de diploma, o documento escrito que dá origem a uma profissão; e também da famosa tríade, "informar, representar, negociar". Um diplomata sem alta sensibilidade para a linguagem é, ao final, um mau diplomata. A linguagem não apenas forma um diplomata, ela o acompanha em todos os momentos, profissionais ou não.


Obras do autor citadas no texto:

Um comentário:

  1. Sempre frontal, tranquilo. Uma postura de Vida da qual eu sou fã. Muitos parabéns pela excelente entrevista.

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