05/05/2016

Entrevista para o Jornal da Universidade Mackenzie

Em abril recebi a seguinte mensagem na página do blog no Facebook:



Acabei vendo o texto somente alguns dias depois, mas respondi ao Luis Ottoni, que seria um prazer ser entrevistada por ele. Optei por fazer a entrevista por e-mail e recebi o texto com as questões a serem respondidas. Ele começava assim: "como havia te explicado pelo Facebook, a minha intenção é mostrar os bastidores da vida de um diplomata que, como toda profissão, tem seus altos e baixos e isso eu tenho aprendido mais ao longo da minha pesquisa.  Aliás, essa curiosidade começou com meu estágio no Consulado dos EUA em São Paulo.  Passei a conversar, então, com alguns diplomatas aqui em São Paulo e fiquei curioso para saber como seria para um cônjuge de um diplomata adaptar-se à essa vida nômade em que tudo pode mudar do dia para noite. Encontrei seu blog e achei seu projeto muito interessante."

Prontamente me animei ainda mais com a proposta do Luis. Pedi a ele que permitisse que eu publicasse a íntegra da entrevista e ele gentilmente aceitou. 




Luis Ottoni: De onde surgiu o projeto de fazer o blog? 

Eu: Começou como uma forma de colocar para fora a alegria, a ansiedade e a angústia de quem estava ao lado de um estudante que se preparava para o concurso de admissão à carreira de diplomata - CACD. Eu tinha certeza absoluta de que com o empenho e dedicação com que ele estudava, a aprovação seria questão de tempo - e o blog passaria a ser sobre a vida no mundo da diplomacia. Depois da aprovação dele e do nosso casamento, comecei a ter contato com o MRE e a aprender muito. Estou sempre aprendendo coisas novas, é realmente muito interessante. Decidi, então, compartilhar algumas informações com quem pretende ser parte do Serviço Exterior Brasileiro - SEB. 

Com o passar dos meses, conheci pessoas incríveis, com histórias de vida fascinantes e me pareceu que seria importante também contar um pouco sobre elas, pois a visão que se tem de fora do MRE sobre os diplomatas é completamente distorcida. Imagina-se que são pessoas frívolas, vazias e que vivem em um mundo de fantasia - cheio de festas e trivialidades - quando na verdade, são pessoas que estudam e trabalham muitíssimo, que doam a sua vida e a das suas famílias para a defesa dos interesses do nosso país. 

Percebi também que a imagem das esposas de diplomatas não é nada positiva para o público em geral. São vistas como mulheres vazias e sem vida própria, que passam os seus dias fofocando, participando de chás e eventos sociais. Eu quis tentar mudar essa percepção, pois conheço "diplowives" fantásticas, com as mais diversas formações, que atuam nos mais diferentes seguimentos e que não somente têm uma vida própria, mas que estão à frente de projetos incríveis. Decidi também mostrar o lado difícil de ser uma diplowife, pois todos imaginam somente o glamour dessa vida nômade, mas poucos sabem o quanto é sofrida e cheia de abdicações.

Apesar de eu ser uma diplowife há pouco tempo e não ter muitas histórias pessoais para contar, gosto de conhecer pessoas, saber sobre suas vidas e aprender com suas experiências. Acho que isso acaba enriquecendo a minha vida e também é muito prazeroso. O blog se tornou, então, um projeto de vida. 


Luis Ottoni: Você pode explicar o significado do termo “diplowife” ?

Eu: O termo "diplowife" é uma denominação que eu considero mais mais divertida para o termo "diplomatic wife", ou seja, esposa de diplomata em inglês. 

No blog, juntei o "diplowife" com o "diplo life" - vida de diplomata -, pois eu imaginava que também me tornaria uma, então estaria ocupando dois papéis diferentes na diplomacia: "diplowife, diplo life". Como a vida dá voltas, o blog acabou sendo sobre a vida de uma "diplowife", mas o título me parecia sonoro, então, o mantive.


Luis Ottoni: Quando seu marido, ainda namorado, tornou-se diplomata, qual foi o seu primeiro pensamento? Você teve algum receio em relação à distância e de como  as coisas seriam levadas dali pra frente?

Eu: Primeiramente, eu fiquei muitíssimo feliz por ele. Era um sonho de infância que se tornava realidade. Eu só conseguia sentir alegria e euforia. Depois de algumas semanas, comecei a pensar em como seria a vida em casal se os dois fossem diplomatas - na época eu também prestava o concurso para a diplomacia. Após certo tempo, por motivos pessoais, abri mão de tentar o CACD e foquei em terminar o curso de Doutorado em Ciências Sociais. Foi aí que as dúvidas começaram a surgir, pois tive contato com a realidade de outras esposas e percebi que eu me encaixava na mesma situação. Tive muito receio pela distância durante missões temporárias ou transitórias, já que eu não poderia acompanhá-lo - não há pagamento de passagem para a família em missões curtas e eu também tenho meus compromissos de trabalho no Brasil. Senti muita saudade durante a primeira missão transitória do meu marido, tanto que escrevi um post no blog somente sobre o tema. Me preocupei também em como criar filhos mudando de país em país a cada dois ou três anos - que idiomas eles falariam, onde estudariam, se conseguiriam manter amizades, se teriam contato com nossas famílias, etc.. Outra preocupação foi de como manter minha vida profissional tendo que trocar de emprego a cada 24 ou 36 meses, isso se eu tivesse visto para trabalho naquele país ou falasse o idioma local. As amizades também trouxeram certo receio: como mantê-las à distância? Foram e são muitos questionamentos.


Luis Ottoni: Atualmente, você o acompanha em uma missão diplomática? Em qual país? Você pode nos contar, também, por quais países já passaram e quais foram os maiores choques culturais que vocês tiveram? 

Eu: Meu marido tornou-se diplomata em 2012. No momento, ele está lotado em Brasília. Não o acompanhei em nenhuma missão, até o momento. 


Luis Ottoni: Houve alguma situação engraçada e/ou desagradável que você pode compartilhar?

Eu: Sempre existem algumas pequenas gafes, quando ainda não estamos habituadas ao modo de conviver da diplomacia, mas não me lembro de nenhuma que possa compartilhar no momento. Algo que sempre me deixa um pouco receosa é pronunciar de forma errada nomes estrangeiros em idiomas que desconheço, especialmente se for em alguma língua exótica.

Já em termos de situação desagradável, eu acho que ocorre sempre que alguém que me conhece em algum evento pergunta para mim somente (e exclusivamente) sobre o meu marido - viagens que ele fez, onde trabalha, o que faz, que idiomas fala. Parece que sou somente um assessório dele aos olhos da pessoa. Como muitas esposas de diplomata (ou Ofchan e Acham), tenho uma carreira e uma vida profissional à parte da de diplowife e, ao menos, eu, me sinto menosprezada quando o assunto é somente o meu cônjuge.


Luis Ottoni: Vocês têm filhos? Pretendem ter? 

Eu: Ainda não temos filhos, mas é um projeto para um futuro de médio prazo.


Luis Ottoni: Em um de seus posts, você explica o que é a “imunidade diplomática” e o fato desses benefícios não serem tudo aquilo que as pessoas pensam ser. Alguém já te tratou diferente ou, ainda, de forma preconceituosa por ser “diplowife”?

Eu: A imunidade diplomática é um atributo concedido ao Estado pelo Direito Internacional. Aqueles que podem fazer uso dela, o fazem em estrito cumprimento do dever funcional no exterior. Os familiares, por acompanharem o servidor na missão, detêm algumas imunidades, previstas na Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas. Infelizmente, muitas pessoas desconhecem a legislação e pensam que é um benefício pessoal da carreira. No Brasil, não possuímos nenhum tipo de imunidade, mas sempre me perguntam se preciso pagar imposto de importação ou se sou parada na alfândega ou na imigração nos aeroportos brasileiros. Em nosso país, somos cidadãos como quaisquer outros, com os mesmos direitos e obrigações. 

Sim, já fui tratada algumas vezes de forma "diferente" por ser diplowife. 

A primeira delas, foi logo após me casar. Várias pessoas me perguntaram se eu pararia de trabalhar para ser diplowife em tempo integral, já que meu marido sustentaria a casa e eu poderia ter tempo para me divertir e cuidar de mim mesma. Certamente, não sabiam que o salário de diplomata não é tão bom quanto o do Legislativo ou do Judiciário, ou até mesmo diversas carreiras do Executivo. E provavelmente não pensaram que independentemente da carreira do meu marido, sou um ser humano independente e com sonhos e vontades próprias.

Em outra situação - essa mais recorrente até os dias de hoje - quando me perguntam qual é a profissão do meu marido, a reação à minha resposta geralmente é "nossa, que chique!" ou "tá bem de vida, hein?". Em resposta, eu geralmente brinco de volta: "chique é ele, cuja cozinheira e faxineira tem doutorado".  Pode parecer rude, mas acho que julgar a situação de uma pessoa pela carreira de seu cônjuge é mais rude ainda. 


Luis Ottoni: Na sua opinião, quais as virtudes uma pessoa deve ter para ser um diplomata? 

Eu: Acredito que resiliência (diante do desconhecido e do inesperado), educação (ao lidar respeitosamente com os demais), maleabilidade (o famoso jogo de cintura), humildade (para perceber que é sempre necessário e possível aprender mais) e curiosidade.


Luis Ottoni: Como é sua rotina como “diplowife”? Insira-nos em um dia de sua vida, rs. 

Eu: Ser diplowife é somente uma das minhas atribuições, sou também pesquisadora, professora universitária, advogada, blogueira e dona de casa. Geralmente, divido o meu dia entre alguns afazeres domésticos e os meus trabalhos na área acadêmica/profissional e do blog, que considero como hobby, apesar de levar a sério. 

Ao longo do dia, no papel de diplowife, gosto de compilar e compartilhar no Facebook (@diplowifediplolife) notícias ou informações que considero interessantes e de preparar as publicações do blog. 

Em algum dia pode haver um evento ao qual devo acompanhar o meu marido, mas não é uma constante. Quando há, me arrumo em casa mesmo (nada de day spa ou salão, como alguém poderia vir a imaginar, pensando em uma vida glamourosa): utilizo os vídeos de maquiagem e de penteados do Youtube, escolho um vestido na altura dos joelhos, sapatos fechados e pronto. Alguns dias antes do evento, gosto de me informar sobre quem serão os convidados estrangeiros e me preparo buscando me informar sobre política, economia, história, literatura e cultura dos seus países, para poder conversar de forma mais fluida (e sem gafes) com eles.


Luis Ottoni: Como você tem pontuado em seu blog, a crise política do Brasil está constantemente afetando os diplomatas no exterior. Você e seu marido estão sendo afetados? Quando e como isso começou? Você conhece outros diplomatas que aceitaram falar sobre a situação deles também? 

Eu: Eu prefiro não tratar de política doméstica no blog, pois como futebol e religião, costuma despertar paixões nos brasileiros. Tento me manter distante dessas discussões na internet, até porquê percebo a diplomacia como sendo uma carreira de Estado e não de Governo. Independentemente dos governantes do país, a dedicação e o amor ao nosso Brasil devem permanecer intactos. 

O que verdadeiramente me motivou a abordar no blog  a questão do auxílio moradia foi ver, nas redes sociais, comentários desinformados e (muitas vezes) maldosos sobre a vida dos servidores do MRE no exterior. Percebi que alguns acham que o auxílio moradia é um privilégio, quando na realidade, ele é uma necessidade do ofício. É realmente uma pena que não compreendam a dificuldade que é deixar o seu país (e seus amigos e familiares) para representá-lo no exterior. Essa abdicação envolve questões que muitas vezes não são nem cogitadas por quem não conhece a realidade do Serviço Exterior. Tentei, então, de alguma forma, colaborar para elucidar a situação pela qual colegas passam para poder servir ao Estado brasileiro.

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