29/08/2016

Diplomatas Famosos: Vasco Mariz

Aos 92 anos, o Embaixador Vasco Mariz lançou a obra "Nos Bastidores da Diplomacia", que narra momentos memoráveis da sua carreira no Ministério das Relações Exteriores. No post de hoje, gostaria de homenageá-lo, citando seu próprio texto, presente no mencionado livro autobiográfico. 


"Sou de ascendência portuguesa do lado de meu pai, e basca do lado de minha mãe. Meu pai, Joaquim José Domingues Mariz, vinha de uma família de classe média do norte de Portugal, de Fão e Esposende, com algumas posses, e um tio que chegou a bispo de Braga, personagem regional. Meus avós desejavam que meu pai seguisse a carreira eclesiástica e o internaram quase à força no seminário de Braga. Ele era um bom estudante e se distinguiu no seminário, mas por ocasião do assassinato do rei de Portugal em 1911, os seminários foram fechados e meu pai aproveitou para fugir para o Brasil, onde tinha um parente bem posicionado. Veio trabalhar com José Maria da Cunha Vasco, importante industrial português, então presidente da fábrica de tecidos Confiança, no Rio de Janeiro, hoje transformada em shopping center. Meu avô materno era de “cuna basca” e foi uma espécie de mecenas, amigo dos melhores artistas da época. Meu pai trabalhou com ele, conviveu com a filha do patrão e encantou-se com ela. Casaram-se em 1920 e eu nasci a 22 de janeiro de 1921. 

Minha mãe, Anna da Cunha Vasco, foi uma pintora já bastante conhecida no Rio de Janeiro, a “aquarelista do Leme”, e que até hoje é citada em vários livros brasileiros de história da arte, pois ela pintou o Rio de Janeiro do início do século XX e Copacabana ainda como um grande areal. Carlos Drummond de Andrade escreveu um belo artigo no JB louvando as aquarelas de Anna Vasco, ao comentar uma exposição de sua obra.

Meu pai era homem de negócios, representante no Rio de Janeiro de uma importante fábrica de tecidos paulista. Não ficou rico, mas ao aposentar-se havia juntado um razoável pecúlio, vivia bem e mantinha uma bela casa na serra de Corrêas. Viajou à Europa várias vezes e era homem de boa base cultural, pois fora seminarista e falava latim e francês razoavelmente. Era respeitado na então poderosa comunidade portuguesa no Rio de Janeiro e chegou a presidente da Sociedade de Beneficência Portuguesa por dois mandatos e, em 1954, foi um dos diretores do Jockey Clube Brasileiro, encarregado da construção do belo prédio no centro da cidade. No 8º andar desse prédio, junto à entrada da biblioteca, há uma fotografia da diretoria que construiu o edifício. Sempre que lá vou almoçar, faço-lhe uma visitinha para ver a sua foto ao lado dos outros diretores. Tinha dotes oratórios e era chamado para fazer discursos pela comunidade lusa. Certa vez, quando jovem, surpreendeu-me para dizer que no dia seguinte viria almoçar em nosso apartamento de Copacabana um colega de seminário em Braga: era o cardeal Cerejeira, primaz de Portugal.

A princípio morávamos em Botafogo, então bairro elegante carioca, e estudei no colégio Santo Inácio, um dos melhores do Rio até hoje. Recentemente, quando o famoso colégio completou 100 anos, fui um dos convidados a contar recordações em sessão especial do IHGB. Entrei para a Faculdade de Direito em 1938, ano em que faleceu minha mãe, e lá fui companheiro de banco de Clarice Lispector, com quem tive um ligeiro flirt sem consequências.

Dois anos depois, meu pai casou-se novamente e a minha madrasta, D. Acácia, teve um papel muito importante na minha formação, porque ela me estimulou bastante nos estudos e orientou minhas leituras. O serviço militar também me fez bem, dando-me maior noção de disciplina e responsabilidade. 

Formei-me em Direito em 1943 e estava entusiasmado por ingressar na carreira diplomática. Não estava bem preparado ainda, mas fiz o concurso de 1942 somente para sentir a atmosfera e não fui aprovado. Convocado pelo exército, cursei o Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva (NPOR) em Niterói e cheguei a ter data marcada para embarcar para a Itália. 

No ano seguinte consegui ficar entre os primeiros colocados no concurso do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP) para a carreira diplomática, mas a nomeação demorou e só em dezembro de 1945 tomei posse. Minha turma era de bom nível e tivemos algumas personalidades que ficaram famosas, como Ramiro Saraiva Guerreiro, futuro chanceler, Antonio Houaiss, futuro ministro da Cultura e presidente da Academia Brasileira de Letras, José Sette Câmara, governador do Rio de Janeiro, João Cabral de Melo Neto, famoso poeta também da Academia, e outros que alcançaram o nível mais alto na carreira, como eu mesmo. 

Ao ser nomeado chefe de missão em Quito em 1969, eu era o embaixador mais jovem em atividade Durante o primeiro estágio no Itamaraty servi na Divisão de Atos Internacionais, onde tive a primeira decepção na carreira, na Divisão do Pessoal, onde aprendi os meandros da administração, e na Divisão Cultural, onde conheci minha primeira esposa, Therezinha Soares Dutra, sobrinha do famoso almirante. Ao chegar a hora de ir trabalhar no exterior, em 1948, ofereceram-me os consulados em Londres, que não me convinha porque havia na época forte racionamento, Amsterdam e o consulado-geral no Porto, terra de origem de meu pai, cargo que aceitei. Fui trabalhar com um brilhante intelectual, Renato de Mendonça, premiado pela Academia Brasileira de Letras. Passo a seguir a tecer alguns comentários sobre Portugal de ontem e de hoje, o que acredito vai interessar aos leitores." (...) 


Mariz, Vasco.  Nos bastidores da diplomacia : memórias diplomáticas. Brasília : FUNAG, 2013. Páginas 17 a 20.

Íntegra disponível em:
http://funag.gov.br/loja/download/1077-nos-bastidores-da-diplomacia.pdf

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