09/08/2016

Entrevistas com Jovens Diplomatas - Ernesto Mané Jr.

Na quarta entrevista da série, conheceremos a história do Secretário Ernesto Mané Júnior, diplomata desde 2014. Natural de João Pessoa, Ernesto é físico, PhD em Física Nuclear pela Universidade de Manchester e realizou pós-doutorado no Laboratório de Física Nuclear e de Partículas do Canadá. Antes de ingressar no Itamaraty, trabalhou como professor de inglês, programador, garçom e pesquisador. Em seguida, foi bolsista do Programa de Ação Afirmativa do Instituto Rio Branco para Afrodescendentes e prestou o concurso apenas duas vezes, tendo sido aprovado em quarto lugar na sua turma. Atualmente, atua na Divisão de Desarmamento e Tecnologias Sensíveis.


Antes de se tornar diplomata, qual era a sua formação?
Física. Bacharel pela UFPB e PhD pela Universidade de Manchester.


Que carreira(s) você seguiu antes de ingressar no Ministério das Relações Exteriores?
Antes de entrar no MRE, fui professor de inglês, programador, garçom e físico nuclear - nesta ordem.


Conte-nos um pouco sobre como e quando você decidiu seguir a carreira no Serviço Exterior Brasileiro. 
Para falar porque decidi me tornar diplomata, preciso comentar minha trajetória. Eu fui uma criança muito curiosa e demonstrei, desde cedo, interesse por matemática e ciências naturais. Aos sete anos, havia decidido que queria ser cientista quando crescesse. Tive, no ensino fundamental, excelentes professores, que me inspiraram e me incentivaram a me aprofundar nos estudos. Foi no início da adolescência que eu despertei a paixão pela física.  Aos 14 anos, tive contato com o cálculo diferencial e estava começando a buscar livros de física em nível universitário. Fiz o ensino médio na uma Escola Técnica Federal e me especializei em programação de computadores. Apesar de minha inclinação natural para os números, tive a sorte de também ter recebido, ao longo de meus anos escolares, uma boa formação humanística.  Na Escola Técnica, por exemplo, fui aluno do Prof. Dr. Evaldo Souza, que dava aulas de geografia e sociologia. Também tive aulas de filosofia, artes, ética e cidadania.

Já na universidade, fiz o bacharelado em física, e fui bolsista do Programa Especial de Treinamento (PET), sob a tutoria do Prof. Dr. Pedro Christiano. No PET, para além das matérias básicas, discutíamos o impacto da ciência na sociedade e o papel político do cientista. Éramos instigados a ler e discutir, em grupo, obras clássicas. Também iniciei um projeto de iniciação científica voluntária em física nuclear com o Prof. Dr. Nilton Teruya.

Paralelamente, descobri cedo que tinha forte inclinação para línguas estrangeiras. Aos 11 anos, por exemplo, pedi a minha mãe para me matricular em um curso de inglês, onde, mais tarde, também tive aulas de espanhol, de modo que, no final da adolescência, falava bem as duas línguas. Aos 15 anos comecei a estudar alemão sozinho.

Aos 20 anos, fiz parte de um programa de intercâmbio acadêmico em Manchester, no Reino Unido, entre setembro de 2003 e julho de 2004. Durante o intercâmbio, tive a oportunidade de aperfeiçoar o inglês e aprofundar minha formação em física. Foi também minha primeira experiência no exterior, intensa e transformadora. Cursei dois semestres acadêmicos, o que correspondeu ao último ano da graduação. Fiz também algumas matérias da pós-graduação. Ao final do intercâmbio, com base em meu desempenho acadêmico considerado excelente (first class, no sistema inglês), recebi o convite do Prof. Jonathan Billowes, líder do grupo de física nuclear da Universidade de Manchester, o berço da física nuclear, para fazer o PhD direto, sem mestrado, sob sua supervisão. O trabalho de pesquisa deveria realizar-se no Centro Europeu de Pesquisas Nucleares – o CERN, localizado em Genebra. Aceitei com entusiasmo o convite, porém, antes, precisava voltar para o Brasil, aproveitar os créditos do intercâmbio, fazer algumas disciplinas que faltavam para receber o diploma de bacharel em física.

Imediatamente após retornar do intercâmbio, iniciei um curso de francês na Aliança Francesa de João Pessoa, considerando que iria fazer parte de minha pesquisa de doutoramento em Genebra e mantinha um relacionamento à distância com uma francesa que conheci em Manchester. Na Aliança, tive contato o Prof. e teatrólogo João Torquato de Lima Filho, figura importante na cena cultural pessoense, que estava à frente do Café Cultural e com quem mantive agradáveis conversas nos intervalos das aulas.  Foi ele quem me falou do Programa de Ação Afirmativa para Afrodescendentes (PAA), iniciativa fruto de uma parceria entre o CNPq, IRBr e a agora extinta SEPPIR. O Prof. Torquato me incentivou bastante a fazer a inscrição para a prova da bolsa. Conversei com meus pais e antigos mentores, e todos me deram total apoio. Desses, os Profs. Evaldo e Pedro Christiano foram grandes incentivadores.

Com praticamente nenhuma preparação especial, passei na seleção da bolsa. Isso foi no primeiro semestre 2005. No entanto, havia acabado de me formar e estava prestes a começar o doutorado em Manchester, que começaria em setembro de 2005. A chegada dos documentos relativos à implementação da bolsa coincidiu com minha ida à Inglaterra, e foi-me vedado nomear um procurador para assiná-los em meu nome. Tentei argumentar com o CNPq, mas, a instituição ao tomar conhecimento que estava no exterior, decidiu cancelar a concessão da bolsa, alegando que a realização do doutorado seria incompatível com os estudos de preparação ao concurso de admissão à carreira de diplomata (CACD).

Tudo isso para falar que essa foi a semente que ficou plantada na minha cabeça durante os anos em que estava fazendo o doutorado. Nesse período, entre 2005 e 2009, morei um ano em meio em Genebra, a fim de realizar minha pesquisa de campo no CERN. Foi um período enriquecedor, pois estava em contato direto com as mentes mais brilhantes da comunidade científica internacional, além de ter conhecido muitas pessoas que trabalhavam nos inúmeros organismos multilaterais sediados na cidade.

Defendi minha tese em julho de 2009. Em agosto do mesmo ano, recebi uma oferta para realizar o pós-doutorado no laboratório nacional do Canadá de física nuclear e de partículas – TRIUMF, localizado em Vancouver, sob a chefia do Dr. Matthew Pearson e do Dr. Jens Dilling.  O laboratório possuía interesse no trabalho realizado no CERN e gostaria de trazer os avanços que eu havia ajudado a desenvolver na área de aprisionamento e resfriamento de íons radioativos e técnicas de espectroscopia laser de alta resolução. O pós-doutorado durou três anos (2009 a 2012), sendo bem sucedido nesse aspecto. Nesse período, também dediquei-me à espectrometria de massa de precisão e à ressonância nuclear, sendo autor e coator de uma série de publicações em jornais especializados, incluindo o prestigiado Physical Review Letters.

Durante os anos em que realizei o pós-doutorado, amadureci a ideia de retomar o projeto de fazer o CACD. Os seguintes fatores, embora não sejam exaustivos, contribuíram para eu tomar essa decisão:

a) A física continuava sendo minha paixão, mas o ambiente científico, por vezes, chegou a ser desestimulante. Houve episódios relacionados à dinâmica do trabalho que foram extremamente desagradáveis e me fizeram reconsiderar se eu gostaria de continuar uma carreira na ciência. Estava fazendo pós-doutorado, sem muita perspectiva de quais seriam os próximos passos para assegurar um trabalho estável no Brasil ou no exterior, que me permitisse produzir pesquisa de qualidade, de acordo com minhas capacidades e os recursos disponíveis.

b) Estava com saudades do Brasil. Estava há oito anos morando no exterior, e julgava que seria bom retornar para casa. À época, o Brasil estava passando por um momento excepcional e muitos brasileiros que moraram no exterior, assim como eu, queriam retornar e fazer parte daquele momento. A economia estava indo bem e o país estava liderando iniciativas diplomáticas inovadoras, muitas das quais estavam ressonando em todas as partes do mundo. Além disso, graças à internet, eu mantive o hábito de acompanhar a vida política do Brasil em tempo real. Sentia um orgulho tremendo do Brasil. Ter morado tanto tempo no exterior tornou-me ao mesmo tempo cosmopolita e reforçou dentro de mim um forte sentimento de brasilidade.

c) Era uma questão de encontrar o momento certo para perseguir esse objetivo, que havia temporariamente adiado. Um amigo próximo e conterrâneo, o Mozart Grisi, formado em engenharia elétrica, havia passado no CACD de 2010. Quando soube que ele havia passado, pensei que talvez houvesse chances reais de eu passar também. Ainda no Canadá, escrevi-lhe alguns e-mails, os quais ele respondeu com prontidão e me encorajou a considerar a ideia com mais seriedade. Sua ajuda foi imprescindível, e recebi muita assistência dele posteriormente nos primeiros meses que cheguei a Brasília.

d) Estava chegando ao fim do meu contrato de pós-doutorado no TRIUMF, e um desses eventos desagradáveis me deixou sem perspectivas, dentro da física, no curto prazo. Foi-me oferecido, no segundo semestre de 2011, um contrato de trabalho em um laboratório nos EUA, o Argonne National Laboratory. Fui a Chicago e realizei processo seletivo que durou uma semana, incluindo apresentação de seminário e entrevistas. O diretor científico do laboratório, Prof. Robert Janssens, disse que havia ficado impressionado com meu portfolio e reiterou a oferta de emprego. Entretanto, o líder do grupo de pesquisa que me havia feito a oferta inicial, Dr. Peter Muller, após ter confirmado verbalmente a oferta, e eu tê-la aceitado, cortou abrupta e inexplicavelmente o contato, não respondendo mais aos meus e-mails ou telefonemas.  Com a chegada do final do ano de 2011 e o início de 2012, as circunstâncias foram me conduzindo para o retorno ao Brasil.

e) Eu sempre quis poder apreciar da liberdade intelectual que me permitisse direcionar minha curiosidade ao que me interessa. Paradoxalmente, durante o doutorado e o pós-doutorado, não consegui realizar essa vontade em sua plenitude. Além disso, depois de ter dedicado alguns anos à pesquisa, descobri que a ciência é uma atividade política em todos os sentidos. Por exemplo, depois do doutorado e do pós-doutorado, o indivíduo tem de lutar por sua estabilidade profissional, por financiamento, por alunos e para ter suas ideias aceitas na comunidade científica. Esperava que, como diplomata, eu pudesse desfrutar de mais liberdade intelectual para explorar áreas da ciência e de outros domínios do conhecimento, que estariam inacessíveis, em decorrência das estruturas rígidas das universidades e dos centros de pesquisa.

Finalmente, ao decidir retomar o projeto do CACD, tive a sorte de descobrir que o PAA ainda existia. Vim para o Brasil no final de 2011 para realizar a prova da bolsa e, em março do ano seguinte, fui convocado para a entrevista. Ao sair o resultado final do processo da bolsa, arrumei minhas malas e voltei para o Brasil. Dia 20 abril de 2012 estava em Brasília, pronto para começar a preparação.


Fale sobre sua preparação para o concurso. Quais foram os maiores desafios e como você os superou?
Foi um processo bem intenso. Fiquei aproximadamente dois anos estudando em período integral, incluindo fins de semana e feriados.  Fiz o CACD em 2013 e não passei na primeira fase, por pouco. Em 2014 eu passei no CACD em quarto lugar. Os estudos seguiram o caminho usual - uma combinação de cursinhos, aulas particulares, leituras e fichamentos. Para mim, o maior desafio foi o de manter o conteúdo factual fresco na memória. A melhor forma de superar essa dificuldade foi por meio de exercícios e da resolução de provas anteriores.


Ao ingressar no Instituto Rio Branco, houve alguma mudança na sua vida? 
Sim. Primeiramente, tive que passar a vestir terno e gravata todos os dias, algo que só havia feito três ou quatro vezes na vida! Em segundo lugar, comecei a conhecer o Itamaraty por dentro e as pessoas que compõe o Serviço Exterior Brasileiro. A própria rotina do IRBr impôs mudanças na vida, já que é um curso de formação de período integral, com elevada carga de leitura e trabalhos acadêmicos. Além disso, passei a me socializar intensamente com meus colegas do IRBr.  


Quais são as atividades que você realiza ou já realizou, das quais mais se orgulha, no MRE?
Atualmente estou trabalhando na Divisão de Desarmamento e Tecnologias Sensíveis, onde tenho a oportunidade de tratar, por exemplo, dos esforços multilaterais no sentido de proibir o emprego de armas de destruição em massa – químicas, biológicas e nucleares -, e diminuir o sofrimento humano em situações de conflito armado.


Além de ser diplomata, você tem algum hobby ou paixão?
Física, capoeira, escalada, música, leitura. Não necessariamente nesta ordem.


O que você diria para quem pensa em prestar a prova de seleção para o Programa de Ação Afirmativa do Instituto Rio Branco para Afrodescendentes?
Diria que estudem, que se dediquem com o mesmo afinco de quem se prepara para passar no CACD. Conseguir a bolsa está se tornando uma tarefa cada vez mais complexa, o que vem exigindo uma preparação mais robusta dos candidatos à bolsa.


Você daria alguma dica para quem quer se tornar diplomata?
Sim, que sejam organizados. O edital é amplo, e é preciso conseguir manter o material de estudo constantemente organizado. Organizar o material força a organização das ideias, o que ajuda ao longo da preparação e, sobretudo, às vésperas das provas, quando, neste caso, o tempo para revisar é escasso. 

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