28/01/2017

Série Jovens: o nosso futuro. Entrevista com Alexandre Netto

Hoje iniciamos uma nova série de entrevistas aqui no blog, intitulada "Jovens: o nosso futuro". Nela, jovens de 18 a 30 anos contarão suas histórias, expressarão suas opiniões e nos contarão o que têm feito para melhorar o mundo em que vivemos. 

O nosso primeiro entrevistado é Alexandre Netto, gaúcho, nascido em Bagé, e tem 25 anos. Em 2016, concluiu o curso Embaixadores da Juventude, organizado pelo UNODC e pela Caixa Seguradora. Ele é criador do BYE Program e faz parte do Árvore do Bairro. Vamos conhecê-lo melhor, e também ao trabalho que ele realiza?

Crédito: Jovem de Expressão

Pergunta: Alexandre, conte-nos um pouco sobre sua história pessoal.

ALEXANDRE: Sempre fui uma criança tímida de poucos amigos, entrei na adolescência fazendo um pouco mais de amizades, porém, nunca fui uma pessoa popular na escola.

Meus pais se divorciaram quando tinha 3 anos, fui criado pela minha mãe e visitava meu pai nas férias da escola. Muitos dos meus esforços enquanto adolescente eram para criar um link com meu pai, por isso tentei a todo custo virar um jogador de futebol. Futebol virou minha obsessão por um bom tempo. Comecei tarde com essa obsessão, aos 13 para ser mais específico, quando cheguei aos meus 16, notei que eu não tinha o que era necessário para ser um jogador. 

Ao final dos 16, fui convidado para um retiro de jovens de uma Igreja Evangélica, lá fui apresentado à fé, e, a partir desse dia tudo mudou. Eu considero essa parte da minha vida uma fase bem complexa, por que eu não fui somente apresentado à fé, eu também fui apresentado ao microfone. Foi nessa época que tive minha primeira oportunidade de falar em público, e para minha surpresa, pelo menos com o microfone na mão e pessoas me olhando, eu não era mais aquele garoto tímido de poucos amigos. Era como se eu pudesse naquele momento, em frente às pessoas, me transformar em um novo eu, um eu mais corajoso, forte, inteligente e descolado. A essa fase sou grato, porém, por ter sido uma experiência que durou por volta de 3 anos, acabei perdendo alguns amigos, deixando de lado minha adolescência para que com 18 anos pudesse encaixar-me em uma posição que 99% das pessoas que exerciam tal função tinham mais de 40 anos. Entretanto, há momentos em que vale a pena perder coisas para poder ganhar lá na frente outras, e eu ganhava a habilidade de fazer o conhecimento palpável, fazer pessoas entenderem, mal sabia eu que essa capacidade traçaria o rumo da minha vida.

Saí dessa fase direto para a faculdade, onde cursei Teologia, o curso era interno e em outro estado do Brasil, mais precisamente em Santa Luzia (MG). Lá desenvolvi um trabalho de 2 anos em um presídio de adultos e uma unidade para adolescentes em conflito com a lei, a qual mais me ensinou a ser um ser humano melhor. Finalizei meu curso e vim direto para Brasília, onde minha noiva morava, nos casamos e desde então comecei a trabalhar com Inglês. 

Nessa época eu não tinha nenhuma plataforma de fala e o inglês me devolveu algo que eu já sentia muita falta, falar em público, ensinar, conectar-me com pessoas através do conhecimento. Trabalhei em algumas escolas, cada qual com sua metodologia, porém todas com a mesma crença; viam os alunos com a mesma visão dos portugueses ao avistar os índios.

Tive o privilégio de nessas idas e vindas em escolas de inglês conhecer um mestre para a vida, o dono de uma escola que me ajudou não somente a entender melhor o ensino como entender a mim mesmo. Saí dessa escola que tanto aprendi para começar uma caminhada, que tem sido revolucionária a cada momento.

Desenvolvi um método de ensino baseado em coisas que faltavam nas escolas que trabalhei, banhado em um valioso princípio ensinado por um de meus chefes: “O ensino precisa respeitar as dimensões culturais de cada lugar, sem isso não há aprendizado”.


Imagem: Programa Embaixadores da Juventude. Crédito: Jovem de Expressão


Pergunta: Como foi a experiência no curso organizado pela Organização das Nações Unidas? O que ele mudou na sua vida? Em que momento da sua história você foi selecionado?

ALEXANDRE: Após o desenvolvimento desse método fui selecionado para participar de um curso promovido pelo UNODC em parceria com a Caixa Seguradora, chamado Embaixadores da Juventude.

Foram pouco mais de mil inscritos, desses mil 24 foram selecionados e para minha completa surpresa eu era um deles. Estar lá, olhar para cada colega, cada um com suas características, dores, reivindicações e principalmente suas diferenças fez desse curso o maior breakthrough da minha vida. As aulas me permitiram entender melhor o cenário político internacional e o trabalho da ONU dentro dessa sopa de letrinhas chamada cenário político internacional, cada um com sua língua, moeda, valores, religião. Tive contato com dados que desconhecia, dados que quase me fizeram chorar, porém, em meio ao desespero gerado por alguns números nascia uma vontade imensa de fazer a diferença no mundo e me posicionar como um cidadão do mundo, alguém que vai do micro ao macro em pequenas coisas.

Um ponto interessante desse curso foi o momento da minha vida no qual fui selecionado, eu estava cumprindo aviso prévio em minha antiga empresa, tinha decidido sair para construir uma vida na qual eu me orgulhasse, impregnada de meus valores e que pudesse de alguma forma gerar vida em mim e nas pessoas ao meu redor. Cumpri meu aviso prévio e vivi a pior uma semana da minha vida, dormia e acordava pensando qual seria meu próximo passo sem saber como sair desse labirinto sofri. Uma semana depois eu recebi a notícia de que tinha sido selecionado para o curso Embaixadores da Juventude. Bom, eu acho que você pode imaginar meu entusiasmo, porém, deixei de lado o entusiasmo para me concentrar, pois  eu sabia que essa experiência não era fruto do acaso mas sim um norte que guiaria minha vida a partir daquele momento, fui grato a cada aula e não saí de lá sem agradecer a todos envolvidos fazendo questão de, aí então, mostrar meu entusiasmo, pois, eles estavam mudando minha vida.

Lá, fui empoderado em várias áreas. Uma das coisas que mais me chamaram a atenção foi o conceito de empresa inclusiva, e isso foi uma mudança de paradigma muito grande para mim, sempre vi o empreendedorismo como a concretização de um legado que seu maior fruto é financeiro, notei que estava completamente equivocado, existia uma forma de deixar um legado muito maior que o financeiro, um legado de transformação pessoal e social. 

Lá nesse curso, dentro da sala de reunião da UNODC nascia o BYE Program.
Pergunta: O que é o BYE Program?

ALEXANDRE: Brazilian Youth for English nasceu com uma missão muito clara, acabar com a desigualdade social que o próprio ensino de idiomas tem causado no Brasil: cursinhos de inglês cada vez mais caros, criam um abismo para um povo que começou a ter acesso a faculdade há pouco tempo e já tem mais um desafio para serem competitivos no mercado de trabalho - o inglês.

O BYE Program cumprirá sua missão através de uma metodologia que entende as dimensões culturais do brasileiro, através de muita conversa e exercícios linguísticos que visam o relacionamento e não um livro. 

Faremos com que cada vez mais pessoas falem inglês em nosso país usufruindo de um curso sustentável. O material que tenho produzido não depende de livro, depende apenas de um computador, um projetor e links do youtube. A metodologia foi criada para fazer com que os alunos aprendam inglês e virem os próprios professores do método para suas comunidades, em um processo de empoderamento linguístico que não visa somente a língua em si, mas todas as nuances que giram em torno da comunicação. Dessa forma enriqueceremos comunidades inteiras com o aprendizado do inglês quebrando com a monopolização do conhecimento, vivemos na era da internet, temos todos os recursos em nossas mãos, só estava faltando alguém se levantar e fazê-los acreditar que é possível.

BYE Program já contempla uma comunidade no Recanto das Emas, temos por volta de 40 alunos tendo aula graças à Igreja Evangélica da Assembleia de Deus (ADET do Recanto das Emas) que abriu as portas e cedeu suas instalações para que esse projeto aconteça. E esse é só o começo.

Estamos no meio de conversas para no ano de 2017 entrar na Ceilândia com esse projeto e ensinar Inglês para a juventude através da mistura da cultura brasileira com a cultura do Hip-Hop.


Imagem: acervo pessoal de Alexandre Netto


Pergunta: Alexandre, ouvi falar sobre o trabalho que você faz no Árvore do Bairro, você poderia falar sobre ele?.

ALEXANDRE: O Árvore do Bairro é uma comunidade de fé orgânica, ou seja, não tradicional, não institucionalizada,  democrática, espontânea, natural. Os encontros acontecem nos lares de amigos, onde compartilhamos muita conversa e comidas simples e deliciosas. Em meio a sorrisos e lágrimas, desfrutamos a vida, saboreamos experiências e não nos economizamos um ao outro, nos doamos.

Dentro dessa esfera de comunidade, temos um trabalho de desenvolvimento de metodologias de ensino e formatos litúrgicos. Nossa metodologia visa criar momentos em que elementos que compõem a fé sejam palpáveis, não temos um approach conceitual, mas sim experiencial. Ou seja, ao invés de ensinar as pessoas sobre elementos como comunhão, amor, vulnerabilidade, gratidão, honra, criamos oportunidades de experimentar esses elementos pela vivência, seja ela ativa ou passiva.

Existe um número grande de pessoas saindo de instituições religiosas, porém, sem instrução teológica para viver a fé fora da instituição. É para dar suporte à estas pessoas que temos este trabalho de desenvolvimento metodológico. Fazemos isso para que os conceitos de vida deixados por Jesus sejam cada vez mais tangíveis, palpáveis, percebidos com facilidade, e a fé seja experienciável.

A esses, forneceremos nossos estudos, experiências, metodologias e suporte. Hoje somos 8 amigos que vivem essa realidade. Já começamos a dar suporte a algumas pessoas no Rio Grande do Sul e aos jovens de determinada cidade do entorno de Brasília. Nosso desejo é que essa rede cresça naturalmente e nossos estudos ajudem pessoas a terem acesso à fé e a serem mais autônomas na caminhada cristã. E em reflexo a isso, façam do mundo um lugar melhor.

Logo Árvore do Bairro


Pergunta: O que o motiva a realizar esse trabalho?

ALEXANDRE: Eu tenho dois catalizadores que tem me motivado nessa caminhada.  O primeiro é minha necessidade de manifestar minha fé, vivê-la, tocá-la, percebê-la saindo do campo das ideias para transformá-la em relacionamentos. O outro catalizador que tenho é uma visão clara do presente e audaciosa do futuro. 

Existiu um Teólogo chamado Rudolf Bultmann (1884 - 1976) que poucos conhecem, porém devem a ele sua fé. Bultmann viveu na era da modernidade, que eu defino da seguinte forma: << Modernidade é fruto da construção do pensamento humano em relação aos fatos que se desenrolaram no decorrer da História >>.

Logo, essa geração começou a abraçar fatos e todos os mitos, crenças e até mesmo a fé começaram a perder a relevância. Bultmann, em contra partida, foi um dos grandes nomes que desenvolveu estudos desmistificando a fé e evidenciando o Jesus histórico, com isso as pessoas da época poderiam até não acreditar que ele ressuscitou dos mortos, mas não poderiam anular sua historicidade. Assim, Bultmann protegeu a fé e fez ponte para o que hoje, na pós-modernidade temos sobre ela.  Bultmann foi uma ferramenta essencial para a sobrevivência da fé.  Se hoje um cristão ler seus estudos ficará escandalizado com o que ele falava sobre os milagres de Cristo, porém, historicamente falando, Bultmann foi a solução perfeita para uma sociedade em mutação.

Dado o fundo histórico explano sobre o conceito de visão (Clara/Audaciosa):  Eu acredito que a fé têm perdido pouco a pouco sua relevância na sociedade brasileira no que tange o significado de Jesus e sua aplicabilidade na vida do ser social, ou seja, estamos vivendo uma crise religiosa que divido em dois pilares: Significado e Aplicabilidade. 

Quem é Jesus?
O que ele representa?
O que é minha instituição?
O que ela representa?

Dessa forma, me sinto impulsionado a tentar resolver esse problema que é conceitual e institucional. Nós, do Árvore do Bairro, fornecemos suporte a “desistitucionalizados” promovendo autonomia na fé baseado em nossa metodologia, resgatando assim a vida que infelizmente divorciou-se da fé nesses últimos anos, no formato de rede orgânica.  Não deixamos de dar suporte a instituições que aceitam nossa ajuda entendendo que alguns formatos litúrgicos precisam ser revistos para que as pessoas possam absorver com mais propriedade a fé.

Visão audaciosa do futuro:  Ao olhar para o passado, conhecer a realidade do momento atual tirei conclusões do futuro. Vivemos na era da pós-modernidade, uma de nossas características é relativizar tudo. Aprendi na escola a demonizar a relativização e a minha própria geração (Geração z que também, por influencia da era, ou não, relativiza).

Porém existe algo de muito belo nisso tudo, alguns questionamentos geram revisões em padrões que em sua grande maioria não são repensados há muito tempo, como exemplo disso cito a educação que segue um padrão industrial de ensino e avaliação. 

Quando olho para o ambiente religioso entendo que para a fé fazer sentido para essa geração e as seguintes, ela precisa ter um approach desinstitucionalizado dando acesso a todos.  Acessibilidade tem sido um tema de muita relevância para nossa geração. Por exemplo: Direitos iguais para casais do mesmo sexo, direitos iguais entre mulheres e homens, direitos iguais entre negros e brancos (black lives matter), etc. 

Hoje pela fé muitas vezes ser monopolizada por religiões diversas e suas ramificações, o Jesus que incluiu o leproso na sociedade judaica, que deu autonomia a mulheres para desempenhar o cargo de administração financeira, que andou com homens sem instrução, que relativizou um código penal ao expor a hipocrisia dos que julgavam, infelizmente não pode ser conhecido. Assim, a religião que deveria operar o religare, tem feito o “desligare”, não conseguindo lidar com demandas sociais e com isso, escondendo partes essenciais do evangelho e sua aplicabilidade.

Pensando nisso, o Árvore do Bairro, é uma rede orgânica de suporte para os marginalizados, trazendo inclusão e aplicabilidade da fé para o ser social. E talvez, preparando uma estrutura de vivência que possa assegurar a relevância de Jesus e seu evangelho para uma sociedade em mutação, assim como Bultmann fez.

Imagem: acervo pessoal de Alexandre Neto


Contatos:
BYE Program Fanpage: facebook.com/byeprogram
Árvore do Bairro Fanpage: facebook.com/arvoredobairro

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada pelo seu comentário!